LIVRAMENTO

livramento

Andar
Caminhar
Rodar
Passa um
Passa dois
Passa três
Pra lá de Passa-Quatro
Passa pra cá
Passa pra lá
Passa, pára
Volta a passar
Passa São Paulo cheia
Passa Minas gigante
Passa, pára
Volta a parar
E assim segue
No calor demasiado
No quente grudado
Água, cigarro
Bebida, comida
Saem todos
Voltam todos
E continuamos a rodar
Passam tantas cidades
E tantos caboclos
Gente de bem
Gente que vai além
Além do fim do mundo
Não aquém de ninguém
Há quem reclame
Mas não há quem não ame
Tua terra, tua história
Tua glória e tua dor
Segue em frente
Na mente da gente
É desejo dos pés
Findar o caminho
Fincar no destino
Tua terra de calor
Calor que exala
Do quintal à sala
E desfazer a mala
Já não é mais rara
A hora de se banhar
Para relaxar
E dormir, por favor
Dorme cedo
Acorda cedo
O quente é quente
Mas tem o seu valor
Terra de sol a pino
Terra de vento bom
Terra de rara sombra
Terra que nos aterra
Aterra em outro mundo
Aterra em vasto mundo
Que todo mundo aqui
Não descansa
O mundo aqui sorri
Mesmo embaixo do astro
Que deixa seu rastro
Pra deixar a Lua mandar
Noite escura, breu total
Entra a dona alva e nua
E em sua beleza crua
Ilumina a rua
Das montanhas até o quintal
Temperatura alta
Águas parcas
Aos poucos vou entendendo
E percebendo
Vossa moral
Terra distante
Que aproxima a vida
Vidas simples de gente simples
Que aprecio e suspiro
Deixando pra lá
Todo e qualquer mal
Povo guerreiro
Que não pega o sombreiro
Porque pra uns é sofrimento
Mas pra eles
O valor é rural
Esqueço avenidas
Ruas e alamedas
A pressa sem porquê
E a loucura da capital
Lá, sou menino deslumbrado
Aqui, sou menino real
Entra parente, entra mais gente
Sai e volta sempre
No seu simplório “bom dia”
Até o seu riso do fim do dia
Até as suas rugas dizerem “tchau”
Mata adentro
Permeei caminho de cobra
Segui muito verde de sobra
E jogando conversa fora
No fim do papo
Graças à Deus não caiu a chuva
E nem subiu nenhum gordo sapo
Terra que acorda cedo
Que dorme cedo
Preenchendo seu dia
Que, pra mim
Domingo é todo dia
E pra eles é segunda-feira
Terra de feira, de venda
Terra de rede, de renda
Terra sem internet e sem celular
Mas de possível torniquete
Garrote e terra batida
De dia, calor quente
À noite, brisa e luar
Pedras, cachoeiras e rios
E pra pôr a cereja no bolo
Aqui só falta o mar
Brumado e Caitité
Tabuleiro e Itanajé
Cidades e vilas miúdas
Onde Nossa Senhora
Mostra sua fé
Terra batida
De gente já sofrida
Suas fortes linhas do rosto
São respostas porque estão de pé
Me retiro do meu caos
Para um retiro da minha paz
Até tenho saudade do mundo
Mas se ele acabou
Pra mim, tanto faz
Sou urbano e admiro concreto
Mas a beleza do umbuzeiro
Junto à de minha morena
Me fez dar valor ao vento
E neste meu pequeno convento
Me fiz menino e homem repleto
Terra de nuvens vespertinas
De casebres sem cortinas
Sem confetes, muito menos serpentinas
Nossa Senhora, abençõe meu alimento
Obrigado por me livrar do rude mundo
Muito obrigado por este livramento.

João Aranha

25/12/2012

Livramento de Nossa Senhora – Bahia – Brasil

Foto: João Aranha

Publicado em: Poemas

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