Velhice

O tempo passa. Sim, o tempo passa. E com ele, vamos juntos, sem ver o tempo, sem vê-lo passar. O tempo passa e nós, mesmo sabendo, não sabemos quando o tempo nos dirá que ele veio, mas sabemos que um dia ele virá. Virá de uma forma branda, é claro, afinal, nunca contamos os anos, meses, dias, horas e segundos, mas, a cada segundo que passa, passa-se o tempo e nossa vida vai caminhando até chegar o dia, o dia da nossa velhice. Velhice que vem, velhice que vai, mas todas, sem exceção, vêm, ou melhor, todas elas vêm se assim o destino permitir que venha antes de desaparecermos do mapa, seja ele qual for. A velhice vem e toda a nossa experiência também. As rugas surgem na face, nas mãos, no pescoço e pelo resto do corpo. Os cabelos brancos apontam levemente, outros abruptamente, mas apontam no meio dos outros fios negros, vermelhos, louros ou de quaisquer cores, eles apontam a hora que está passando. A força dos músculos diminui, a memória começa a falhar, para alguns permanecem lúcidas, para outros, ela some como um todo, os movimentos dos nossos membros ficam lentos, o raciocínio um pouco na mesma velocidade, os olhos perdem aquela visão nítida de tempos atrás, o coração fica mais fraco, os órgãos sexuais apresentam suas falhas hormonais, o desejo do sexo não grita como nos bons tempos de outrora, os dentes podem ser substituídos pelas famosas dentaduras, os pêlos vão sumindo conforme o passo lento dos pés, que ora incham, ora se cansam com facilidade e outros órgãos do corpo se prontificam a mostrar que não estão tão bem como antes. Em meio às rápidas, ou não, transformações inevitáveis do corpo, vem a juventude tão serelepe como nunca vista, é claro. Toda a mudança dos velhos vem simultaneamente com a jovialidade dos seres com menos de 20 anos. A vitalidade dos adolescentes e jovens adultos cresce e floresce de forma única, mágica e sadia, porém, e infelizmente, o sadio de tais pessoas não floresce tanto quanto os corpos respectivos, como a educação e o respeito. O tempo passa para os velhos e, de tempo em tempo, a educação fica mais rara, ou, usando mais um eufemismo, alguns jovens não mudam. Os lugares reservados para os idosos nos transportes públicos, nas filas nos bancos, a prioridade que não é priorizada vai se esvaindo da sociedade. Outro dia, eu mesmo ajudei uma senhora bem idosa que, acompanhada aos braços de sua mãe, também já com certa idade, pisou em falso e caiu com o rosto no chão da rua. Eu, que estava parado, fumando meu cigarro e observando o simples passar das pessoas, notei a queda e, prontamente, corri para ajudar a pobre senhora. Corri tão rápido que se fosse mais rápido a senhora nem tinha caído. Sem exageros, a senhora acabara de cair e eu já estava lá, há uns 3 metros de distância de onde eu estava, levantando a senhora fraquinha, junto com sua mãe, que agradecia junto com a senhorinha. Feliz fiquei ao ver que nada de mal tinha ocorrido e que, junto com seu agradecimento, vi o sorriso da senhorinha simpática, se confortando com a ajuda e aliviada por não ter nenhum arranhão aparente nem dores instantâneas. Assim, prosseguiu seu caminhar com sua mãe e eu, levemente assustado, fui aliviando meu desespero durante a corrida. Assim que sumiram do cenário, meu ser, também prontamente, aliviado ficou e, ao mesmo tempo, me veio o pensamento: quantos jovens fariam determinada tarefa? Talvez todos, talvez muitos, mas, não sou super-herói, nem serei e nunca quis ser, mas me arrisco em dizer que, talvez, pelo meu desabafo anterior, poucos fariam. Digo isso porque, o que vejo, a cada dia, é o desrespeito para com os idosos, a falta de atenção e o simples tratar, verbal ou gestual com os bons velhinhos deste país e, por que não, do mundo? Vejo moleques imberbes ouvindo seus MP3 no ouvido e fingindo não ver idosos querendo se sentar nos bancos dos ônibus, vejo ainda vários que nem sabem o que é trabalhar, fingirem dormir no mesmo banco onde deveriam se sentar tais idosos. Eu fico triste, ou melhor, sinto a raiva que talvez alguns idosos nem sintam por aceitarem de alguma forma a negligência de muitos. Enfim, e por fim, sinto que tais velhinhos são mais jovens que muitos jovens, pois ainda têm a vitalidade do viver, do estar vivo e sobrevivendo tantas injustiças sociais e físicas por este mundo afora e, por assim dizer, vejo o caráter ranzinza dos jovens que, muito antes de sua hora, já o fazem. Tenho pena dos jovens. Tenho pena destes jovens que, em sua velhice, podem xingar todos os dias os jovens de futura data e mais pena sinto da memória que alguns podem não ter de lembrarem que, um dia, ou vários, ou todos os dias, ele não ajudou ele mesmo no futuro.

22/03/2011

João Aranha

Publicado em: Crônicas

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6 comentários em “Velhice Deixe um comentário

  1. “[…] ele não ajudou ele mesmo no futuro.” Essa é a frase certa, frase de efeito, o clímax.
    Vale relatar que o desrespeito dos jovens de hoje em dia não tem idade, não é idoso, adulto jovem, criança, bebê… Ele simplesmente
    é, existe, eterno, intenso, um demônio. E é lamentavelmente desgostoso fazer parte do termo “jovens de hoje em dia”. Pouquíssimos se
    salvam, dentre 1000 apenas 100.
    Tento achar uma palavra que defina o texto… talvez essencial, necessário, indispensável. Todos devem saber, refletir, memorizar.
    Muito bom, João, é isso o que é: bom, bom ver alguém com conceitos tão…bons. E é bom, também, me sentir reconfortada por ver que alguém concorda com meus pensamentos. Parabéns, de verdade! 😀 Dá uma passada lá no meu blog, please! Eu disse que já tinha escrito alguns textos e que não tinha divulgado… coloquei no blog sim, apenas não fiz cartãozinho como você. Aliás, é uma boa ideia.

    1. Oi, Bia! Obrigado pela visita e comentário. Fico feliz que tenha gostado e concordado com a minha opinião, mesmo que não concordasse, é bom ver a opinião do outros. E obrigado por gostar do texto, isso anima qualquer pessoa que escreve.
      E por falar do assunto do texto, aproveite que é jovem e tem a cabeça no lugar, valorizando as pessoas e causas importantes e, claro, continue escrevendo para fazer a sua história.
      Verei seu blog também.
      Obrigado mais uma vez. Keep writing.
      Valeu, querida.
      Um beijo,
      João Aranha

  2. Um abraço acolhedor nas tuas humanidades, não sinta pena, ensine quem possa compreender o valor que os “velhos” tem e a necessidade de cuidar dos mais frágeis. Quando jovens a vaidade faz com que sejamos descuidados uns com os outros e bem longe da sabedoria do tempo…

    1. Sim, com certeza. O tempo ensina, mas me revolta o não saber cuidar desde já dos adolescentes ou até bem mais velhos que isso.
      O tempo dirá, bem ou mal.
      Cuidemos.
      Beijo,
      João Aranha

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