Comic Sans

Eles são assim, balançam seus crachás pomposos mostrando o nome da empresa, demoram na fila do self service escolhendo milhões de arvorezinhas e leguminosos para deixar o prato bem verde junto ao pé de frango molhado por três linhas de azeite das inúmeras garrafas dispostas diante dos pratos. Eles são assim, escolhem a coca zero dos sonhos mas não abortam a sobremesa, esta, sempre ao lado, e quando o clima está quente, um sorvetinho é sugado sem ao menos retirar a embalagem molhada e colada no mesmo. Eles são assim, falam de negócios, falam de taxas, falam sobre o chefe que não sabe trabalhar, falam das viagens do fim de semana, eles são daqueles que viagem significa praia, Disney, Orlando ou Miami. Eles são daqueles que amam o verão e que o frio só atrapalha. Eles são assim, eles adoram desktops com imagens de praias paradisíacas, eles adoram a plenitude do não fazer nada, apenas sombra e água fresca, produzir só das 8 às 6 da tarde, porque logo depois tem o happy hour da firma, porque as boazudas que falam sobre os mesmos assuntos estarão lá. Eles são assim, sorriem e falam alto sobre empresas, negócios, taxas, porcentagens, tarifas e serviços, mas falam de arte também, é claro. Falam da peça engraçadíssima que viram no sábado, aquela que tinha uma atriz global, que era gostosa, mas que manda muito bem, que adoram teatro mas nunca foram aos guetos longínquos do sucesso, onde jazem atores anônimos que dão o sangue para interpretar sem ao menos serem reconhecidos na rua. Eles falam de arte, mas não de drama, pois eles são assim, drama é triste, ninguém merece ver, dizem o famigerado “triste já basta a vida”, assim, preferem rir do que chorar, afinal, eles são assim, são os mesmos que não podem ouvir uma música clássica e logo soltam o seu brado retumbante “essa música dá sono” e emendam com o repetitivo, insistente e pobre “toca uma mais agitada?”, pois é… eles são assim. São daqueles que também amam cinema, claro, eles são daqueles que amam cinema porque gostam de rir apenas, porque drama “basta a vida”, mas claro, aceitam dramas sim, mas só se forem americanos, porque cinema pra eles só americano, afinal, eles são assim, gostam de filmes americanos porque têm explosões, cenas picantes, humor fácil e final extremamente feliz, por que não entendem o que é previsível, ou até entendem, mas preferem assim, porque dizem o exaustivo “ninguém merece”, porque “de triste já basta a vida, né?”, então, aceitam um draminha, mas tem que ter o Morgan Freeman ou Robbin Williams, entre outros da mesma altura, afinal, só os americanos sabem filmar e só eles têm roteiros excelentes pra mexer com a alma, de tocar no fundo da alma, afinal, roteiros onde a mãe vai atrás da guarda do filho, ou a psicóloga foge de um paciente psicopata, ou um homem de meia idade que sempre fez o bem ao mundo e morre de câncer, ou a catástrofe de uma megalópole que começa com New e acho que termina com York são originais e merecem Oscar, afinal, eles são assim, fãs de filmes que ganharam “o Oscar”. Eles gostam do cinema americano, não gostam do filme europeu porque acham parado, acham chato, afinal, “de triste basta a vida, não é mesmo?” então, porque sofrer? Filme nacional eles gostam também, mas precisa ter ator global, senão não deve ser bom, mas tem que ser engraçado e ter final feliz, pois a felicidade é pra ser vista e sentida na tela, não na vida, porque na vida não é possível, né? Filme nacional fala muito palavrão, mostra mulher pelada e gente pobre, filme bom tem que mostrar loira peituda burra no carrão em Beverly Hills dizendo “motherfucker” entre uma bola de chiclete rosa sendo estourada simultaneamente ao enrijecer dos mamilos disponibilizados sob a blusa apertada para excitar o povo cercado de pipocas e combos gigantescos nas poltronas aveludadas e preparadas para casais fanáticos pelo cinemão calórico, pela película de glicose e pelo final gordurosamente feliz. Eles gostam disso, eles são assim, daqueles que falam que Europa é um continente antigo, que ninguém gosta de coisa velha, e que os Estados Unidos é uma maravilha para se morar, afinal, eles têm tudo lá, toda a tecnologia, respeito pelos habitantes, segurança, compras, milk-shakes, hambúrgueres, hot-dogs, pizzas e calorias por toda a parte, mas que aqui, nos selfs da vida, escolhem as verdinhas já citadas, pois é necessário se cuidar, né? É necessário cuidar do corpo, mas da mente também se cuidam, compram livros de auto-ajuda, afinal, livro bom é aquele fácil, que mostra como viver melhor nesse mundo caótico de empresas mercenárias, mas que mostre uma luz no fim do túnel corporativo para ser o funcionário do mês a ser prestigiado por algo que fez com festinha de comemoração na sexta-feira, onde podem ir sem o gel no cabelo e sem a gravata, afinal, é sexta-feira, e só na sexta-feira podem suavizar os padrões, só na sexta, afinal, eles podem deixar a barba crescer também pra ir no churrasco no sábado mais à vontade, o churrasco do cara mais legal da empresa que ele ama e que dá benefícios. O churrasco onde vão tocar aquela musiquinha mais agitada, e não aquela música triste que serve só para depressivos. Aquele churrasco onde pedem pra tirar foto e ficam mais rígidos que o carvão do churrasco fazendo pose com sorrisos de leste à oeste, pedem para tirar a foto com os amigos em diversos lugares, que são os mesmos lugares, os mesmos amigos e as mesmas poses. São aqueles que, quando viajam para um lugar fora do Brasil (lembrem-se, só Estados Unidos), tiram fotos na frente de monumentos históricos, bem na frente, bem sorridentes e bem na frente da foto, ou no máximo no cantinho, pra depois colocar nas redes sociais com a legenda “foi show… uhuuu!!!”. Sim, eles são assim. São aqueles que dizem que o sobrinho faz o layout do convite do batizado muito melhor que você, pois “o moleque tem as mãnha, ele faz no computador dele, o último que ele comprou lá na megastore” e o texto do convite ele mesmo escreve, porque sempre escreveu bem na escola e a esposa deu aula de português até o ano passado. É… eles são assim, são os que escolhem aquela fonte bem legal para o mesmo convite do batizado porque acham a letra bonitinha, moderna e inovadora, eles escolhem a fonte Comic Sans. E sabem por quê? Porque eles são assim. Eles são Comic Sans.

João Aranha

27/10/2010

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Publicado em: Crônicas

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23 comentários em “Comic Sans Deixe um comentário

  1. rs… o sufocante não é só eles sempre serem a maioria, inclusive quando você entra numa faculdade de prestígio e espera que pessoas únicas participem do seu convívio cotidiano… inutilmente. O sufocante é que dominando a maioria esmagadora de ambientes, parece que o terreno da sagacidade, de uma fase blue, de um novo livro que acompanha sua vida apresenta-se em você pra eles como um exquisite oscilação de humor, mas que por outro lado… para você, transforma seu petit segredo, um instant pic cativante no seu dia, o refúgio mais acolhedor e bem-vindo de todos.

  2. Gostei muito do texto.! Acho que existem muito poucas pessoas que podem dizer que não são e não fazem nada do que foi caricaturizado no texto, nem eu mesma. Mas acredito que existe um número um pouco maior de pessoas que reconhecem a veracidade do que foi dito e refletem sobre a vida ordinária que levam, sendo ordináro no sentido de simples, comum, de “massa”.
    Mas existem pouquíssimas pessoas que externalizam essa opinião crítica, que muitos guardam.
    Parabéns.

    Loise Franco.

  3. Figuras cotidianas muito bem traduzidas! E como existem Comic Sans. Admito que já tirei fui a Orlando…mas creio que não sou Comic Sans. rs

  4. esse é o João! fala tudo (ou quase tudo…rs) q sente, é sincero nos sentimentos… e claro nas palavras.
    mas… peraí!! eu gosto do Morgan Freeman, já tirei foto em frente a monumento… e… infelizmente pra vc… gosto de Comic Sans!!…hahaha…
    mas não sou tudo isso, não!…rs
    sonho em ir pra Europa… e tem alguns filmes europeus q gostei muito…rsrs
    muito bom seu texto, meu irmão!
    e como algumas pessoas já falaram acho q em outros textos seus: vá pro cinema!!!…rs
    te amo! continue assim, sendo vc mesmo!

  5. Caramba, que visão cotidiana sem distorção, pode até não agradar Gregos e Troianos, pois é a própria miséria deles, mas muito realista.Parabéns.
    AP

  6. John Spider, são textos são demais!! Tem um monte desses aqui na V.O. Eu tbm fico observando aquele povo que toma sorvete dps de ir no kilo, e os homens usar camisa de manga curta qdo está calor… e as mulheres, faça chuva, faça Sol, conjuntinho social bege, da liquidação e meia com sapato aberto, é tudo muito igual, o povo da ‘FIRMA’.
    Parabéns, adorei o retrato!

    1. Obrigado, Van! Pois é, eu sofro com isso. Nada de arte, nada de bom, só esses papos sobre o mesmo que me entediam antes de começar…rs.
      Valeu pela visita e elogios.
      Um beijo,
      João Aranha

  7. Retrato da burguesia medíocre, ou da mediocridade presente no cidadão médio, ou daqueles”normais” que caminham pelas ruas sem olhar para cima…
    Há tristeza em só querer ver o alegre, porque o alegre nem sempre é felicidade. Adoro seus textos! Se puder dá uma olhada nos meus blogs

    http://lottanerves.wordpress.com/ — esse é um mais pessoal
    e
    http://portaria.wordpress.com/ — coletivo com amigos da universidade

    Abraço
    Roberta

    1. Obrigado, Roberta! É Exatamente como você falou. Tentei passar essa visão de mundo e de vida do ponto de vista que observo aqui e ali e, tristemente, são assim.
      Obrigado pela visita e comentário. Verei o seus blogs.
      Beijo,
      João Aranha

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