O Segredo é Olhar

Eu precisava disso. Precisava como preciso sempre. Ir ao cinema. Por mim ia todo dia, mas, obviamente, não é possível, nem pelo tempo nem pelo dinheiro, e como tempo é dinheiro, eu não tenho nenhum dos dois, mas sempre encontro um jeito de arranjar os dois. Pois bem, domingão raiou e eu tarde raiei, mas não ao ponto de perdê-lo. Assim, fui ao lugar onde mais gosto de ver filmes, o Espaço Unibanco, o lugar que sempre que eu vou tem um bom filme, tanto que vou sem saber a programação e sempre me dou bem. Vou às cegas e deixo meus olhos baterem nos pôsteres com horários e ler uma matéria rápida no mural que, sempre, tem boas resenhas sobre os filmes dali. É bater o olho e se deixar levar. E, falando em olhos, era disso que eu precisava, dos meus olhos em outra película na sala escura, minha catarse individual e necessária. Pois bem, escolhi “O Segredo dos Seus Olhos”.
A película em questão é a de Juan José Campanella, filme vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010. O diretor é o também responsável por dirigir o famoso “O Filho da Noiva”, película esta que não vi ainda, mas anseio por ver. Mas o que eu queria dizer é que este hermano argentino tem o olhar que eu gosto. Um olhar sensível, um olhar de um diretor que sabe contar uma história, sabe entreter um público com uma aula de enredo que te prende não só pela história em si, mas pela sensibilidade do olhar, e é isso que me comove no cinema: a sensibilidade do olhar.
“O Segredo dos Seus Olhos” conta com a verdade dos atores na trama. É claro, todos os filmes têm esta ferramenta necessária, afinal, não basta um diretor bom se os atores não sustentam a obra, mas, nesse quesito, acredito que é este cinema que me prende, um cinema com um olhar diferente, um olhar que ofusca películas baratas de enredo no intuito de almejar bilheterias gigantescas e efeitos especiais em 3D, 4D ou “whateverD”. Quem me conhece sabe que eu sou fã de filmes europeus, latinos e nacionais, mas aprecio também o filme americano, mas prefiro os independentes do tio Sam que, estes sim, também me emocionam, mas o filme do meu xará do país vizinho (essa forçou hein, João?) tem essa coisa bonita de se ver, é um filme que te faz sentir uma história, de entrar nela. Todo filme tem este intuito, é claro, e talvez eu esteja aqui emocionado de ver um filme que me toca e, como sempre, falo de filmes que me tocam e, querendo ou não, são sempre os europeus, os nacionais, os latinos e alguns asiáticos, mas o querido Campanella tem um olhar fílmico que deixa, ou pelo menos me deixou, sensibilizado.
Quando os meus olhos tremem em certo momento do filme, prenunciando a ejeção de lágrimas é complicado, é sinal de que eu já estou no filme faz tempo. Na primeira cena, ou melhor, na segunda cena eu já estava preso naquele cárcere privado e privilegiado de admirar um bom filme. Nesta mesma segunda cena (acredito que não tenha atingido os trinta segundos iniciais) eu já tinha constatado que eu sempre acerto ao entrar no Espaço Unibanco sem escolher muito, embora sabendo do Oscar do diretor, mas já vi, naqueles olhos lindos e claros de “Irene”, um olhar diferente, o olhar de Campanella, na tela, no coração, na alma.
Trilha que envolve este ser que vos redige é outra coisa que me prende. Basta ouvir melodias simples nas teclas de um piano melancólico pra que meus ouvidos deixem entrar harmoniosamente a partitura da película juntamente aos violinos que puxam o rufar de tímpanos no fim de um compasso triste e angustiante que me arrepia internamente.
Afogo-me em poucas lágrimas, mesmo porque, poucas não querem dizer pouco sofrimento, mas sim, uma verdade sentida. Afundo-me na poltrona com espaços vazios para copos e pipocas americanizadas que não consumo desde que saí da adolescência (e olha que vou fazer 38 anos já,já), ora levanto e me projeto para frente, um sinal de quando a angústia aumenta ou algum suspense é potencializado.
Posso até estar exagerando, pois eu sou exagerado mesmo, afinal, sou escorpião de corpo e alma e exageros fazem parte da minha essência, mas nesta essência não tem mentiras, ela tem contemplação, como é comum da minha parte, mas parte de mim dizer o que vejo, o que ouço, o que penso, o que sinto e o que vivo.
Um filme belíssimo, sensível, bem feito, bem contado, bem elaborado. Um filme do país vizinho que constantemente tem produzido grandes filmes. Um povo argentino que mostra o que sabe fazer, tanto na arte cinematográfica quanto na criatividade publicitária, enquanto brasileiros sem sensibilidade alguma só pensam na rivalidade do futebol que, sequer param pra pensar, que a briga em campo é boa, mas que deviam deixar no campo apenas e não no campo da ignorância de muitos.
Um filme que eu precisava ver, como tantos outros que preciso. Um filme que eu precisava olhar, com o meu olhar, sem nunca saber o segredo dos olhos de Campanella, mas apenas para guardar, sozinho, comigo, através da minha retina, o meu já revelado segredo: o meu prazer em olhar o olhar.

João Aranha

24/05/2010

6 comentários em “O Segredo é Olhar Deixe um comentário

  1. A frase que eu mais gosto nesse filme é a aquela que fala sobre a paixão: “El tipo puede cambiar de todo; de cara, de casa, de familia, de novia, de religion, de dios. Pero hay una cosa que no puede cambiar, no puede cambiar de pasion”. E o seu texto faz jus ao filme, que também fala com essa intensidade.
    Não sei se você já assistiu Repulsion do Polanski, o “Segredo..” me fez lembrar desse filme pq tem o mesmo mote, mas toma outro caminho…não vou explicar muito senão acabo falando o final…mas vale a pena assistir, recomendo!

  2. Vc é incrível, me deixou com vontad de ver o filme! Entregou mais o jogo sobre vc do
    que algo k possa adiantar as expectativas sobre o filme(isso é estratégia de marketing rs..)
    O que está esperando pra assistir o filho da
    noiva? É muito bom, há momentos k até irritam
    por lembrar coisas irritantes do cotidiano, mas como vc disse
    sobra sensibilidade ao explorar a face de cada personagem.
    Somos da mesma época( só k eu sou anos luz parada em algum lugar dela), achei legal,pois
    justifica algumas afinidades.
    Grande!

    1. Obrigado, Andréia! Pois é, sensibilidade é tudo mesmo, pelo menso pra mim. E que bom que despertou interesse no filme. Assista! É realmente muito bom. Pretendo ver o outro dele, com certeza.
      Obrigado pelos comentários.
      Beijos

  3. João, fiquei com muita vontade de ver esse filme. Você e outras pessoas foram só elogios, e a idéia de cartase realmente me atrai. Filme no cinema é pra transmutar, subverter. Caso contrário, não tem graça nenhuma.
    Se tiver em cartaz no Unibanco (que também me agrada e muito) vou lá ver. Mas ando ensaiando pra ver whatever works, vamos ver o que saí no par ou ímpar …ai curiosidade…
    Beijos

    1. Carolina, obrigado pela visita e comentário.
      De fato, eu sou meio exagerado, como mencionei no texto, mas quando eu gosto eu gosto e falo do jeito que eu sinto…rs. Talvez você não tenha a mesma opinião, mas acho que você vai gostar. Está em cartaz lá sim, só não sei até quando. Mas veja o que você quiser, só não perca este, que eu achei lindo.
      Tenha um bom filme. Depois você me conta.
      Beijo,
      João Aranha

      1. Meses depois escrevo para dizer a respeito do melhor filme que eu poderia ver.
        O segredo dos seus olhos é um soco no coração, desses filmes que você sai da sala do cinema cambaleando tentando digerir, racionalizar…impossível.
        Assisti hoje e eu bem cheguei em casa cheia de idéias para botar no papel, não consegui materializar. O fato e o mais importante é que o filme ficou. Incrível e sensível.
        Beijo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s