Pois não?

Entrei na repartição pública e fui direto ao guichê mais próximo.
A funcionária que nem parecia funcionária me atendeu depois de um minuto e meio de espera, isso porque ela tinha me visto logo na entrada, assim que botei meus pés no estabelecimento velho e caído, e ela, neste momento, tinha me olhado com seus óculos velhos com as lentes engorduradas enquanto fazia suas unhas atrás de uma mesa próxima ao balcão, também velho e encardido.
– Pois não? – disse a colaboradora que não pode ser mandada embora.
– Eu gostaria de fazer uma reclamação.
– Pois não? Diga…
– Eu queria reclamar que o povo anda muito sem noção, sem educação, sem solidariedade, sem nenhum bom gosto ou bom trato com os outros.
– Só isso? – disse a manicure auto-didata.
– Como só isso? Eu vim fazer uma reclamação! Gostaria que a senhora pelo menos me dissesse quando isto será resolvido, pois não?
– Olha, meu queridinho, acho que você não entendeu bem. Aqui é um lugar destinado às reclamações e não às soluções, entendeu?
– Mas assim não dá! Eu vim reclamar porque quero alguma solução. A senhora não pode encaminhar isso para algum órgão competente?
– Órgão competente? O que é isso?
– Ah…não… acho que vossa senhoria pertence ao órgão concorrente, o incompetente…
– Olha garoto, como eu já disse, sua reclamação já foi feita e está tudo certo.
– Como tudo certo? Não vai ter solução nenhuma?
– Já disse, garotão. Essa sua reclamação não serve pra nada, só serve pra arquivar, que é exatamente o que vou fazer agora com o seu pedido. Ou melhor, agora não, porque tenho outros processos na frente que são do filho do prefeito, e esses processos dele são de ordem particular, e os processos particulares passam na frente dos processos de reclamações públicas, ok?
– Ah, então além dos processos particulares passarem na frente do meu, e sendo que o meu não é do filho do prefeito, seria só arquivado? É isso? – disse eu com a face ruborizada de nervoso acumulado.
– Sim, filhinho.
– A senhora pelo menos ouviu o meu pedido atentamente? Lembra-se do que eu falei? Da falta de educação, solidariedade, bom trato, essas coisas?
– Como era mesmo a sua reclamação?
– Deixa, esquece… não vai adiantar mesmo…
– Olha, moleque, se veio aqui pra encher meu saco você perdeu o seu tempo, porque eu também já perdi o meu. É melhor ir embora agora, entendeu?
– Muito obrigado pela delicadeza, viu?
– Vem cá! Você foi irônico, rapaz?
– Não, de maneira alguma. Estou agradecendo a sua atenção.
– Escuta aqui, vou chamar a polícia se você continuar fazendo gracinha, você está entendendo?
– Entendi. Obrigado por ser tão solícita.
– Seguranças!!! Tratem de tirar esse delinquente daqui. Ele me chamou de não sei o quê que eu não entendi. Isso é desacato!
– Tenha um bom dia, minha senhora.
– Bom dia o caralho!!! Moleque!!! Não tem coisa melhor pra fazer na vida?

João Aranha

18/05/2010

Pois, não?

Entrei na repartição pública e fui direto ao guichê mais próximo.

A funcionária que nem parecia funcionária me atendeu depois de um minuto e meio de espera, isso porque ela tinha me visto logo na entrada, assim que botei meus pés no estabelecimento velho e caído, e ela, neste momento, tinha me olhado com seus óculos velhos com as lentes engorduradas enquanto fazia suas unhas atrás de uma mesa próxima ao balcão, também velho e encardido.

– Pois, não? – disse a colaboradora que não pode ser mandada embora.

– Eu gostaria de fazer uma reclamação.

– Pois, não? Diga…

– Eu queria reclamar que o povo anda muito sem noção, sem educação, sem solidariedade, sem nenhum bom gosto ou bom trato com os outros.

– Só isso? – disse a manicure auto-didata.

– Como só isso? Eu vim fazer uma reclamação! Gostaria que a senhora pelo menos me dissesse quando isto será resolvido, pois não?

– Olha, meu queridinho, acho que você não entendeu bem. Aqui é um lugar destinado às reclamações e não às soluções, entendeu?

– Mas assim não dá! Eu vim reclamar porque quero alguma solução. A senhora não pode encaminhar isso para algum órgão competente?

– Órgão competente? O que é isso?

– Ah…não… acho que vossa senhoria pertence ao órgão concorrente, o incompetente…

– Olha garoto, como eu já disse, sua reclamação já foi feita e está tudo certo.

– Como tudo certo? Não vai ter solução nenhuma?

– Já disse, garotão. Essa sua reclamação não serve pra nada, só serve pra arquivar, que é exatamente o que vou fazer agora com o seu pedido. Ou melhor, agora não, porque tenho outros processos na frente que são do filho do prefeito, e esses processos dele são de ordem particular, e os processos particulares passam na frente dos processos de reclamações públicas, ok?

– Ah, então além dos processos particulares passarem na frente do meu, e sendo que o meu não é do filho do prefeito, seria só arquivado? É isso? – disse eu com a face ruborizada de nervoso acumulado.

– Sim, filhinho.

– A senhora pelo menos ouviu o meu pedido atentamente? Lembra-se do que eu falei? Da falta de educação, solidariedade, bom trato, essas coisas?

– Como era mesmo a sua reclamação?

– Deixa, esquece… não vai adiantar mesmo…

– Olha, moleque, se veio aqui pra encher meu saco você perdeu o seu tempo, porque eu também já perdi o meu. É melhor ir embora agora, entendeu?

– Muito obrigado pela delicadeza, viu?

– Vem cá! Você foi irônico, rapaz?

– Não, de maneira alguma. Estou agradecendo a sua atenção.

– Escuta aqui, vou chamar a polícia se você continuar fazendo gracinha, você está entendendo?

– Entendi. Obrigado por ser tão solícita.

– Seguranças!!! Tratem de tirar esse delinquente daqui. Ele me chamou de não sei o quê que eu não entendi. Isso é desacato!

– Tenha um bom dia, minha senhora.

– Bom dia o caralho!!! Moleque!!! Não tem coisa melhor pra fazer na vida?

João Aranha

18/05/2010

Um comentário em “Pois não? Deixe um comentário

  1. Gostei. É assim mesmo, infelizmente. Em muitos lugares, com um monte de gente… em todo mundo.
    Gostei… mas sou uma funcionária pública diferente, viu?…rsrsrs
    Bjo.

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