Vampiros Sensíveis

Não sei nada sobre o crepúsculo, ou sobre a lua nova, o marketing crescente, a pipoca cheia e conteúdo minguante, mas uma coisa eu sei: filmes de vampiros com sensibilidade de verdade não é comum e, claro, vindo da Suécia é mais incomum ainda. Como sabem, não sou fã de blockbusters, apesar de já ter trabalhado em uma, mas o problema é quando todo mundo começa a gostar de uma determinada coisa e, vindo essa coisa das terras do Tio Sam, novamente, me ponho a ficar em fúria, porque tudo o que vem de lá vira marketing, vira brinde, vira a cabeça das pessoas e eu, revoltado e indignado com pessoas que amam enlatados e séries pelo mundo afora, fico neurótico e estressado quando só se falam em um assunto, ou melhor, num filme só. Calma, pessoas, eu gosto de filmes americanos e até algumas poucas séries, mas é bem a minoria que eu gosto, e tanto os filmes como as séries não são daqueles em que as adolescentes ficam levemente, ou totalmente, com as roupas de baixo úmidas por um sorriso ou até pelo não sorriso de um galã e a adolescência masculina também deixa-se excitar pelos cabelos de uma menina bonita que faz par com o referido acima. Volto a frisar que, não assisti e, talvez, seja um bom filme, antes que me ataquem no pescoço mas, por que não assistir um filme diferente, daqueles que não se ouve falar, daqueles que não se vê em qualquer sala de cinema mas que, em si, nos tocam, nos deixam amenos e bem menos estressados com tamanha fome de filmes e séries em sequência?

“Deixa ela entrar” é o filme sueco de que falo aqui, uma película que mostra o filme de vampiros mas com um olhar diferente, e é exatamente esse diferente que me fascina. Diferente por três motivos: primeiro porque não posso considerar um filme com clichês vampirescos com o excesso de sangue que nenhum posto de saúde jamais teve em seu estoque, mas sim o sangue que existe, mas em doses homeopáticas, sem exageros ou aparições desnecessárias; segundo porque é um filme europeu, ou seja, não compete com brindes, firulas e pipocas, apenas mostra a história e pronto, com uma narrativa simples e sem firulas de efeitos especiais e, em terceiro; por ser um filme delicado, pacífico, que mostra o lado noturno do vampiro através de duas crianças, um menino extremamente inocente e indefeso e uma menina, com o seu lado transilvânico na alma, no corpo e, é claro, no sangue.

Um filme extremamente bonito, mesmo dentro dos moldes da criatura dos infernos aterrorizando almas desavisadas em busca de seu alimento de prefixo fator RH. Como o próprio comentário de um crítico, que se encontrava no próprio poster, eu devo repetir: “um filme sombriamente poético.” Essa frase eu realmente queria ter feito, foi o comentário mais próximo da perfeição. E, seguindo ele, devo dizer também que o filme mostra o amor entre essas duas crianças, um romance ingênuo, onde os dois se deparam diante da serenidade e simplicidade que é ser criança e de não terem dúvidas ou medos, mas sim, a vontade de se entregar, mesmo que não seja a um namoro normal, mas a uma amizade pura, com poesia e com a força que um amor, mesmo através dos anos, permanece nos corações humanos e, inclusive, nos que passaram desta para outra fase da vida, ou da morte.

Recomendo o filme, está sendo exibido no Espaço Unibanco, ah… como eu gosto desse lugar, viu? Tanto é que escolho, como já falei, quando chego lá e, sempre, assisto um filme bom, afinal, pra mim, cinema de verdade está lá.

Lembrando, eu já assisti muitos filmes de vampiros, até com o Jack Palance (essa só os amigos arcaicos lembram) eu assistia e o que mais gostei foi o “Drácula”, de Bram Stocker, do diretor Francis Ford Copolla, que mandou muito bem em 1992. Os “crepúsculos” ou “inescrepusculosos” que me desculpem, mas se for casalzinho bonito pra vender pipoca, que vendam a sobriedade sueca, com sotaque árduo de se ouvir, num frio de congelar, mas com a sensibilidade de aquecer nossas almas.

E se a poesia bater em seu coração, por favor, deixa ela entrar. É aí que nós renascemos.

João Aranha

19/11/2009

4 comentários em “Vampiros Sensíveis Deixe um comentário

  1. Adorei a crítica-crônica. Não vi o filme e bato no peito por isso. Adoro produções e coisas escandinávas de modo geral (bergman, uhu!), noves fora talvez aquela mania que eles têm lá de se suicidar sem causa aparente. Mas vou vendo umas aparições do José Serra, o nosso vampiro-taxador, pra compensar a falta do “deixa ela entrar”. Amplexos.

    1. Ó, professoire! Fiquei feliz com seu comentário por aqui e feliz por ter gostado da crítica-crônica! A propósito, a fusão das duas seria uma “cronítica” ou uma “critônica”? Bom revê-lo, ainda que por aqui, Castelo. Mas não deixe de assistir, acredito que gostes da película em questão. E viva os vampiros com sensibilidade, não os taxadores! Grande abraço, ó pá!

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