EDIFÍCIO MASTER – O PRÉDIO DO BRASIL

Caros amigos, estava eu fuçando os meus arquivos quando encontrei um texto antigo e resolvi postar. Foi uma tentativa de explicar o trabalho do ótimo cineasta e documentarista Eduardo Coutinho, em seu filme “Edifício Master”.

Abaixo, um trecho do filme e o texto em questão.



O Prédio do Brasil.

Posso entrar? Pode. Entramos. Estas são as palavras, ou pelo menos próximas disso, que mais ecoaram no Edifício Master, no Rio de Janeiro, no famoso prédio de tantos mil moradores onde residem tantas outras mil famílias e sua grandiosas histórias. Neste documentário de Eduardo Coutinho não entramos nas casas dos moradores do famigerado condomínio carioca, entramos, sem querer e por querer, na vida destes cidadãos, ou mais profundamente, na alma de alguns deles.

O produto audiovisual de Coutinho é propositadamente simples, sem quaisquer peripécias de edição ou efeitos visuais, e esta simplicidade do documentário está principalmente na percepção e captação de novas e desconhecidas histórias que, de simples passam a ser ricas e grandiosas. Eduardo Coutinho visitou vários apartamentos deste antigo prédio do Rio de janeiro no intuito de extrair vidas que nunca foram postas ao público e, certamente, o mesmo público telespectador nunca saberia delas se as lentes do documentarista não investigasse, com atenção minuciosa, as histórias que elas tinham para contar.

A rotina invadida pela equipe do cineasta, basicamente feita de um produtor, um cinegrafista, provavelmente algum assistente e um diretor de olhos atentos e ouvidos em pé para tantos e maravilhosos depoimentos de uma classe média baixa que enfrenta dificuldades pela vida. A receita do filme, que realmente foi produzido em formato digital, era simples: fazer perguntas e ouvir respostas. Essas perguntas eram feitas sem o saber do público, vindo a aparecer somente nas respostas dos entrevistados. Todos os entrevistados, trabalhadores, estudantes, donas de casa e aposentados foram retratados no vídeo com profundidade humana, pois todos contavam suas vidas sem qualquer cerimônia diante de uma câmera, sem vergonha de dizer as verdades que vivem em seu dia-a-dia. Coutinho e sua equipe, pacientes e curiosos como uma boa equipe de documentaristas deve ser, arrancaram preciosidades dos condôminos que, aos poucos, iam cativando os cinéfilos e admiradores do “cinema verdade”. Todos mostravam ou contavam suas rotinas, suas trajetórias, suas vontades, medos, alegrias e tristezas diante de uma vida sofrida e adaptável na medida do possível, todas em meio a cenários verdadeiros, ambientes nunca vistos antes, mas que são facilmente reconhecidos pelo público do Brasil: a casa do brasileiro.

A veracidade dos fatos contada pelos moradores enriquecia o documento à medida que o tempo ia passando, moradores anônimos passaram a ser atores de uma realidade própria, onde ficção não existe e não funciona. O que acontece com estes moradores do gigantesco edifício são vidas, com perdas e ganhos, mas são vidas que se cruzam com nossas verdades e com fatos que acompanhamos, de certa forma, em jormais, novelas, filmes e até ouvindo o povo dizer nas ruas. Muitos moradores do prédio conhecem seus vizinhos, outros, porém, nem sabem quem mora ao seu lado, muito menos quantas pessoas existem no mesmo andar ou apartamento pegado, mas até então este não é um problema e sim, mais um rico detalhe das vidas conturbadas dentro do Master.

Violência, barulho, silêncio, coleguismo, amizades, sustos, festas, esconderijos, confissões, amores, descasos, tudo o que se possa imaginar já aconteceu no Edifício Master, não importando a razão das coisas, mas a intensidade com que fatos ocorridos lá é que ditam a vida do prédio.

Um documentário questionador, cheio de “causos” vividos ou não vividos enfatizam o tamanho que é este Brasil, só pelo retrato de um prédio, repleto de emoções diferentes em meio à pluralização de costumes, crenças e hábitos brasileiros.

Em determinado momento podemos nos comover junto com um dos protagonistas de plantão, num maravilhoso e verdadeiro cantar de Frank Sinatra misturado com a voz real de um senhor aposentado que teve a rara oportunidade de conhecer o cantor e ator norte-americano em época mais ativa de sua arte. Sua cantoria traz a saudade de um tempo que não volta mais e percebemos, nitidamente, que o tempo para todas as pessoas passa e muitas coisas acontecem na vida de cada um. A força do canto do aposentado deixa a platéia desavisada emotiva juntamente com a sensibilidade do morador, uma das partes mais interessantes deste documentário.

Muitos residentes do prédio são agradecidos pelo cantinho disponível para suas vidas e seus afazeres, nota-se uma sensível gratidão de grande parte do grupo entrevistado, pois aventuras e turbulências fizeram parte do Master, mas o mesmo abraçou e recebeu todos eles, como uma mãe recebe os filhos de volta pra casa. São os bem acolhidos filhos do Master que protagonizam este belo documentário do diretor acostumado com verdades e mais verdades, devido à sua grande experiência com jornalismo documental em emissoras de tv e seus filmes que mostram, nada mais, nada menos, que a verdade propriamente dita.

O olhar de Coutinho é simples. Com suas câmeras paradas em momentos certos, outrora em movimento, fazem dele um cineasta de verdades puras, carregadas de imagens de um Brasil real e sem hipocrisias baratas. Um cinema onde se mostra como se vive no Brasil, como se faz cinema verdadeiro, uma força de vontade pela realização audiovisual em um país miserável de finanças, mas rico de poesia, humanidade e cultura. Vidas secas e desmoronadas, mas milionariamente belas e fortes, cheias de exemplos e paixões.

Em uma obra sem recurso algum, ele consegue mostrar sua beleza interior, tanto com sua visão como a visão que nós mesmos também damos para cenas que nos empolgam ou que nos repelem. A casa do brasileiro neste filme é a nossa casa visitada, mas contada por outros atores. Ficamos nus diante de uma realidade que nos pertence ou que estamos próximos. Uma versão não glamourizada de estrelas contentes e batalhadoras.

Porteiros também não ficam de fora do elenco, eles também contribuem, majestosamente, com seus informes, comentários e também suas outras histórias.

Eduardo Coutinho com sua experiência de diretor consegue captar a verdade além da lente, ele não diz “ação” para estes atores, mas apenas liga sua câmera e deixa fluir a espontaneidade e natureza sem palavras dos brasileiros deste país.

Uma obra que dá prazer de se ver, um trabalho esplendoroso, pois suga a alma dos outros e deixa a sua com vontade de “quero mais”. Sua técnica talvez seja a não técnica específica, mas o dom que tem de deixar as pessoas à vontade para contar suas façanhas entre os meandros desta vida que não é nada fácil para muitos.

Para Coutinho, o brasileiro talvez seja o maior motivo de seu trabalho, pois é dele que ele aperta o corpo e tira o suco que poucos conseguem extrair, mas sem muito açúcar e também nada muito salgado, apenas a verdade como ela é, ou seja, uma verdade bem dosada.

Um edifício que fala por si só, mas que com o documentário, não precisa falar mais nada.

“Edifício Master” é um filme que fala pouco, mas que cala muitos.

João Aranha

Publicado em: Crônicas

3 comentários em “EDIFÍCIO MASTER – O PRÉDIO DO BRASIL Deixe um comentário

  1. Ferrou, agora preciso conhecer, você instiga. Muito interssante, me fez lembrar Pierre Bourdieu e a obra- A miséria do mundo.

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