UM DIA LIMPO

Hum… nove horas da manhã. Olho no relógio, com uma leve dor de cabeça somada ao ressecamento dos lábios devido à noite anterior, sim, duas baladas, um aniversário de um grande amigo e mais um fim de noite num bar, no centro de São Paulo, regado à muito rock n´ roll. Uns tiozões da era do rock propriamente dito, uns dinossauros tocando sons dos dinossauros, espetacular, faz um tempo que não terminava a noite num belo bar de rock, com os melhores e grandes hits do som rebelde nascido, praticamente, em 1955. Vocês acreditam que os tiozões tocaram Iron Man, do Sabbath? Olhei para o meu amigo ao lado e sorrimos de emoção e surpresa pois, até então, o som que imperava era algo em torno de Creedence e Stones, por isso a alegria nossa de ver a tradição do bom e velho rock ser invadida pelo belo, velho, mas sempre novo, heavy metal clássico de Mr. Ozzy junto aos riffs maravilhosos de Tony Iommi. Mas…voltando ao relógio…

Agora, dez da matina, ainda com muito sono, mais cansaço do que sono, ela ainda não tinha chegado, graças ao bom Pai. Onze e pouco, que na realidade, onze é pouco. Precisava dormir mais, meus neurônios não raciocinavam e meu corpo jazia ali na cama, na busca de mais horas intermináveis de sono pesado, pesado como o som que ouvi a poucas horas antes de deitar.

Interfone toca. Ok, pode mandar subir. Era Verinha, trabalha com a gente lá na agência. Como o mercado está ruim, até ela veio fazer um frila em casa, entendo perfeitamente, faço uns de vez em quando. O problema eram os líquidos responsáveis pela limpeza. Claro, João, ficou de deixar pra última hora, deu no que deu. Toca a levantar pra comprar Cândida, desinfetante, álcool (um parecido com o que eu tinha consumido na noite anterior), panos de chão e algo mais. Desci na padoca, pedi um pingado. Por que raios que sempre o pingado vem com natas? Odeio natas. E o que custa colocar o pingado numa xícara? Nada contra copos americanos (uma das poucas coisas americanas que eu gosto), mas sempre me leva a crer que o famigerado e bom pingado não vai esfriar nunca, tenho sempre a sensação que vou ficar meia hora esperando a temperatura baixar para não queimar a língua. Bom, na troca do utensílio doméstico (porém, utilizado em estabelecimentos comerciais), a enxaqueca foi-se. Bom, ela foi, mas ainda ficou a essência do “o que eu estou fazendo na rua com este sol escaldante em cima de mim onde não suportarei nenhuma buzina no meu ouvido em plena madrugada raiada pelo astro-Rei?”

Bom, deu uma melhora, mas foi engraçado ir ao supermercado, logo ali, umas quadras perto do apê, pensando no que comprar para a faxina, posto que até já comprei estes produtos de limpeza, mas nunca só eles. Me senti como minha mãe indo ao supermercado. Ela, com certeza iria falar, João Caaaaarlos, faça uma listinha. Mas como sou contra listas, nem no pijama, aliás, não tenho pijama, tenho moletons velhos que visto, muito mais confortáveis que estas vestimentas almofadinhas que trazem bolsos totalmente desnecessários no paletó, que até hoje não sei para que servem, acabei não anotando nada.

Adoro supermercados. Gosto bastante, desde criança. Gosto de passear, sem compromisso sério, procurando produtos para o lar e, desta vez, era pro meu lar, embora pague aluguel, considero meu lar. Como gosto tanto destes lugares, por mim, ficaria horas lá, só lotando o carrinho de produtos desnecessários para o meu cotidiano. Gosto muito dos corredores que encontramos os desinfetantes, sabões e afins. Me sinto num bosque florido, cheio de perfumes matinais na primavera campestre dos campos holandeses. Nossa, essa frase soou meio gay, concordo, mas é bom sentir o cheirinho de limpeza, nos faz bem, nos faz acreditar que a vida vale a pena e que, é só passar um paninho que tudo melhora em nossas vidas. É a mesma coisa que sinto quando formatam ou consertam alguma coisa no computador da gente, me sinto limpo, aliviado, parece que acabei de tomar banho. Eu compraria dúzias e dúzias de produtos de limpeza, só pra ver a embalagem brilhando em nossas vidas e com a essência de diversos perfumes invadindo nossa casa. Dá vontade de comprar tudo, tudo mesmo, até coleira de cachorro dá vontade de comprar. Tenho um cachorro, mas não aqui em Sampa, em Campinas, saudades dele, do Rush (sim, sou fã da banda que deu origem ao nome, praticamente, o longa que deu origem à série).

Mas, mesmo assim, dá vontade de levar. Dá vontade de sair cheio de shampoos, condicionadores, até absorventes dá vontade de comprar, mesmo sem a necessidade do uso. Se bem que serviriam para limpar janelas, ou como calço para o fogão, ele está meio bambo, ou bamba? Sei lá. Só sei que quando cheguei na parte dos panos, caramba (é pra não dizer caralho), fiquei bobo de ver o preço de um simples pedaço de pano que vai direto ao chão, de encontro às bactérias e afins. Quase 5 reais? Isso vai dar pano pra manga! E outra, tive de comprar mais, ou seja, uns 15 reais praticamente, fora a Cândida e outros irmãos da limpeza. Esta, a famosa mencionada, tinha uma demonstradora falando das vantagens do produto e queria me empurrar um conjunto de garrafinhas bonitas (essa publicidade, viu?) e dizendo que eu levaria produtos da mais aaaaalta qualidade…nesta hora eu sorri e não resisti, ela notou que eu notei uma frase decorada. Bom, é o trampo dela, não podemos reclamar, mas vir pra cima de mim, com óculos escuros, de ressaca e com o corpo andando mais por instinto do que por necessidade, aí não dá, né? Despistei a mocinha e fui ao caixa. Lembrei de mamãe, de novo, e notei que a vida muda, não tem jeito. Há muitos anos, eu seria o garoto que puxaria a saia da minha mãe ou viraria o queixo dela pedindo atenção (eu fazia isso, hoje me arrependo profundamente em pensar como eu era chato nessas horas) e também pedindo para comprar potes e potes de iogurte, chocolates e refrigerantes. Hoje, loto o carrinho de cervejas e amendoins, apartamento de solteiro não tem jeito, como diz meu amigo, compra de solteiro é sempre assim, cervejas, cigarros, salgadinhos, camisinhas, algumas revistas e, o extremamente necessário também vai, mas só o extremamente necessário.

Pois é, o tempo passa, a vida muda e a poupança Bamerindus continua numa boa, ou seja, faliu.

Pois é 2, o tempo passa mas algumas coisas não mudam nunca. Estava vendo televisão, bem depois da compra, e pensei, nada muda neste mundo. O salário não vai aumentar, a violência só vai piorar, as drogas sempre existirão, sempre existirão pobres e ricos e assim vai. Não tem esta de acreditar que o mundo vai melhorar, as coisas não são assim, tudo é uma questão de interesses. Sempre existirão políticos corruptos, sempre, ou vocês acham que vai chegar um dia que veremos os noticiários e nunca mais ouviremos nada em relação a um escândalo absurdo de desvio de verba ou algo parecido? Acham que o narcotráfico vai acabar? Que as escolas públicas vão atingir os níveis de excelência (na maioria, ok?) iguais ao ensino particular? Será que um dia vamos ver que não existe mais seqüestro, bombas e assaltos por aí? Será que o sistema carcerário brasileiro vai proibir de verdade o uso de celulares dentro do presídio e que, com isso, nossa sociedade perde, cada vez mais, espaço e liberdade para viver? Olha, vocês podem me achar pessimista, mas eu não sou, pelo contrário, me considero é muito otimista. Sei dos problemas que acontecem, mas acho que as coisas vão melhorar sim, mas estas, que citei, não acredito não. Muitas outras podem ocorrer, mas crime e valores de salário, por favor, esqueçam. Se isso acontecer, prometo voltar aqui e reconsiderar meus comentários, mas, acho difícil…

Passei no caixa, aiaiai, no crédito, por favor, prefiro. Normalmente uso o “chora agora” (mais conhecido como cartão de débito), pra não chorar no fim do mês, mas este, preferi adiar meu sofrimento.

Voltando para casa, sorri, ao ver que a compra estava feita e que meu humilde cafofo ia ficar limpinho e perfumado. E isso, podem acreditar, faz a gente pensar que a vida vale a pena, pois limpando nosso lar é que podemos limpar a mente e, conseqüentemente, limpar o mundo. Sou otimista sim, pois amo a vida e adoro os pequenos prazeres que ela proporciona, tipo…ir ao supermercado, falar besteiras num bar e rir à toa, ou melhor, até rir de mim mesmo me deixa feliz. Considero as pessoas que não riem de si mesmas um porre, um porre muito maior do que eu tive antes de dormir. E isso, é uma ressaca sem cura.

João Aranha

20/08/2007

Publicado em: Crônicas

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