QUER SAIR COMIGO?

Vamos, João! Vamos nessa?
Ok, eu vou. Só espera um pouco, preciso ir ao banheiro, escovar os dentes. Deu uma fominha, bom, uma fominha não, uma sedinha, sede de uma breja. Acho que vou tomar uma pelo caminho até a exposição.
Encapoto-me com minhas vestimentas para o inverno. Um nó reforçado no All Star preto, com o cadarço indo para o cinza, aquela puxadinha na meia, sim, vira e mexe ela dá uma quedinha e o frio sobe pela canelas. Subo o zíper do agasalho até cobrir o gogó, boné já na cabeça, mochila nas costas, MP3 ligado, sim, volume 25 (o máximo é 30). Pego a rua fria, em direção à Paulista. Sim, fui a pé, pensei no metrô, mas chegaria rápido demais e não poderia beber a cervejinha no meio do caminho, fumando um Marlboro e misturando a fumaça do veneno com as que soltamos involuntariamente em dias de baixa temperatura.
João, verifique os bolsos. Tem algum trocado?
Sim João, achei umas moedinhas simpáticas. Eu odeio moedas, mas como são bem-vindas quando as queremos, não?
Uma Skol por favor. Nem pedi gelada, pois além de ser óbvio, o clima ainda propiciava a vinda de uma bem trincada. Veio.
Tsss… Ah, que bom. Um gole, um trago, um som nos tímpanos, um caminhar sem pressa, uma mente olhando mulheres bonitas, charmosas e elegantes pela avenida, uma alma em busca de arte. Sexta-feira. Adoro sextas, adoro quintas. Nasci numa quinta, à noite, novembro. Talvez por isso goste de quintas, mais que sextas, enfim, sou casado com o sábado e durmo com o domingo (é pra isso que ele serve?).
Cuidado João, olhe o carro, seu sempre imprudente. Pois é, olhei o carro, mas eu estava olhando as luzes, como eu gosto destas luzes, viu? Mais um som na orelha, como ele participa de minhas lentes naturais, faço filmes 24 horas por dia, com ou sem som. Neste caso, faço clipes. Devaneios, desejos, curiosidades, observação, voyeurismo. Sim, velado ou não, sou um destes. Pessoas, muitas pessoas, mais pessoas.
Atravesso a Paulista, sempre larga, imponente, luminosa, cheia de gente, eu amo gente. Indo e vindo. Gosto de pessoas andando.
Sesc. Cheguei. Leio calmamente o programa do mês na vitrine (que o certo é vitrina, mas me nego a dizer). Quanta coisa boa acontecendo aqui. Cinema, teatro, exposições, dança, fórum, discussões. Uns pagos, outros não. Entro na fila. Cabelinhos vermelinhos na minha frente, óculos qudradinhos de armação preta, charmosinhas meninas, duas de cabelos ruivos, uma não, mas seu charme era o mesmo, talvez único. Gosto, gosto muito disso.
E aí Vanderlei? Beleza? Um amigo do meu primo surge. Se combinasse não o encontraria, coisas do acaso. Tudo bem? Tudo. Como vão as coisas? Tô de saída, nos falamos. Bom te ver. Té mais.
Volto meu olhar para a fila. As bonitinhas estavam lá. Bom. A cerveja acabou, o cigarro acabou, a fila andou.
Sim, mesanino. Fui ver o trabalho, uma vídeo-arte de meu professor da Pós, Luciano Mariussi. Muito bom. Adorei a observação dele, vídeo experimental muito interessante, “Não entendo” foi um deles. Gosto deste experimentalismo. Preciso mandar um e-mail para ele comentando sobre.
Bom, acabou, saí.
Ué, João, são quase 10 da noite! Hmmm…arte. Cinema. Sim. Cinema. Precisava, precisava, precisava.
Sigo na mesma, naquela iluminada, aquela cheia de pessoas e coisas acontecendo.
Um boteco. Uma latinha, por favor?
Cevada no frio combina. Café no verão também. Doido? Não, só não ligo para restrições impostas pela sociedade.
Augusta. Mais cabelinhos curtos passando, o charme continua, ou melhor, aumenta. Malucos, cults, descolados, é… eu estava na Augusta. A Augusta é um barato. Nos dois sentidos: Centro ou Jardins. Um desfile de muita gente, muitas idéias, muitas coisas, muitos estilos e loucuras. Gosto. Gosto disso…
…Desço duas quadras, quase três. São 22:10h, mais ou menos, será que dá tempo de uma sessão na sala escura? “Proibido Proibir” (não me lembro se tem o “é” antes), de Jorge Durán. Estava louco para ver a película. Putz, sessão às 22:30h. Lindo! Um café, um salgado, chega de cevadas, por enquanto, pois amo café e ele me ama, sinto isso.
Aceita cartão?
Não, só dinheiro.
Sorte. Ainda me restavam 5 ronaldos na carteira, o resto era documentos mil, bilhetinhos, saldo do débito automático, telefones, cartões. Puta merda, preciso entregar esse comprovante para o Gordo. Bom, já faz uns três meses que jaz na carteira, está fazendo bodas, mas entrego hoje, sem falta.
Que salgado delicioso. Frango. Adoro frango. Um café forte, bem forte. Gosto de café forte. Expresso. Peço à barista, que me entrega, segundo o meu pedido, após o término da pequena iguaria. Gosto de finalizar a refeição, mesmo que mínima, com o aveludado sabor do café descendo pela garganta. Óbvio. Pst… hmmm…acendo o crivo, já meio torto, era maço. Adoro maços, tem seu charme, mas amassam. É uma bosta. Mas as caixinhas ficam incomodando no bolso, enfim, um trago, dois. Sim, sei que faz mal, não sou idiota que não está nem aí, mas sou idiota porque estou aí. Enfim, mais um trago.
Vem um cara alto em minha direção. Você viu meu RG? É que você estava na minha frente, na fila, e depois ficou ao lado enquanto digitava sua senha. Depois disso eu perdi, você não viu?
Olha, não vi, nem reparei. Pergunta lá pra mocinha do caixa…
João, só faltava o cara achar que levei a bagaça do documento. Ma era sussa, só estava com dúvida mesmo.
Olho no saguão, desfiles de pessoas bacanas. Pra lá e pra cá. Tinha uma linda. Estava com o namorado, pena. Mas o cara merecia ela, tinha estilo também. Recolho-me, indignado, mas recolho-me.
Volta o cara, desta vez em direção à porta de uma das salas do espaço, o do Unibanco mesmo.
Desta vez, fui eu:
Psssiiiuuu!!! (mais em tom de assobio). Ele olha. E aí? Encontrou? Acena com a cabeça afirmando.
Volto ao meu cigarro. De olho no saguão, pensando no prazer de assistir um bom filme, após um bom café. Vejo Cristiane, minha amiga jornalista, amigona de minha irmã caçula, Angélica. Sempre nos esbarramos nesses lugares culturais. E, pra variar, sem combinar nada.
Tudo bem? E aí? Ela apresenta a sua amiga. Conversamos rápido, pouco, mas conversamos. Que filme vai ver? “Proibido Proibir”. Que legal! Também vamos.
Entramos. Sentamos. Sala escura. Como eu gosto de cinema, viu? A magia de uma tela sendo projetada uma película em 35mm tem uma luminosidade que nem a Paulista consegue, muito menos Las Vegas.
Começa. Caio Blat, Alexandre Rodrigues, Mira Flor (eu me apaixonei, pra variar). Grande filme. Real, simples, diário, brasileiro, risos, aflições, confissões, percepções, verdade, mentira, um filme muito bom, explícito, sem firulas. Um filme que retrata a vida de jovens universitários, a simplicidade de um grande filme, mostrando a alegria, a tristeza, os desejos, ambições, medos, ideais, frustrações, coragem, displicência e aventuras de pessoas bacanas, inteligentes e divertidas. E eu, mais uma vez, sorrio, me emociono, quero fazer, fazer cinema. É, cinema diz tudo. Cinema é tudo. E tudo é cinema.
Saímos. Vão esticar? Vamos.
Eu vou nessa, estou cansado. Até a próxima.
Vai João, corre que você tem que pegar metrô, são quase 00:15h.
Deu tempo. Sempre dá.
Fones no ouvido. Um Coldplay, Um Fresno, Um Doobbie Brothers, Um Max de Castro, Um Simoninha, Um Caetano, Um Iron Maiden, Um Groove Armada, Um Zeca Baleiro, Um Lenine, Um Limp Biskit, Um Linkin Park, Um Beatles, sim, es†ão todos lá, entre tantos outros variados, sempre comigo. O ecletismo me ajudando a fazer clipes nas ruas. Eu amo clipes, já falei sobre isso?
Subo a rua, ando, ando, ando. Porta abre, boa noite. Seu João sorri acenando com a mão direita. Sobe elevador. Abre a porta.
Entro em casa. Geladeira com várias lacunas, umas nas grades, outras na porta. Um pãozinho. Maionese. Guela adentro. Uma latinha. Pego.
Ligo a TV, aberta. Merdas passam. Viajo, xingo, tiro sarro. Canso.
João, vamos dormir?
Sim, deixa só eu fumar este cigarro.
Não ponho para despertar, não quero acordar cedo. Não. Estou cansado. Mas bem, muito bem. Feliz com o meu dia.
Folheio a Veja, leio a matéria principal. Boa matéria. O segredo? Ser feliz. Feliz consigo mesmo.
Bocejo.
Boa noite, João.
Boa noite.

João Aranha

28/05/2007

Publicado em: Crônicas

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