PÁGINAS AZUIS

Páginas Azuis

Sei que sou apenas mais um a falar deste assunto, também pudera, o assunto virou assunto já há muito tempo. Falo do fenômeno que tem um peso além do normal nos dias de hoje. Não, pessoas amigas, não estou falando do nosso centro-avante brasileiro, falo do sistema eletrônico que juntou, em todo o mundo (especialmente nas terras tupiniquins), pessoas e mais pessoas e mais algumas pessoas, em outras palavras: o orkut.
Pois é, diante de tanta coisa que aconteceu neste mundo, e quando digo mundo eu penso nele todo, muitas coisas surgiram, muitas coisas apareceram de forma benéfica, outras maléficas, outras nem caminho tinham, mas o nosso famigerado orkut veio (pelo menos até hoje) para ficar. Eu mesmo estou nele há, “quase exatos”, dois anos. Lembro que quando entrei tudo era azul, a página e o astral. Reencontrei várias pessoas que não lembrava nem o nome, nem onde morava e nem nada, mas lembrei quando apareciam, claro. Conheci muitas pessoas, sim, a maioria (ainda) virtualmente, mas algumas conheci pessoalmente e, de verdade, tenho contato até hoje. Muitos apareceram, muitos desapareceram, muitos sequer apareceram, sim, pois tem pessoas que tem aversão (não importa a versão) ao orkut, vai entender, mas tudo bem, loucuras à parte (afinal, quem sai é porque estava ficando louco e quem fica é porque continua o sendo), cada um, cada um.

Mas o que queria falar (será que consigo hoje?) é que a aquisição virtual deste formato amistoso (ou não…) entre as pessoas gera um bizarrice que nos remete a pensar que ele já é um requisito para se fazer parte da sociedade. Digo isso porque estava em um evento de publicidade, antes de vir para a terra da garoa (mas já sendo sócio do clube tão em voga) e encontrei uma grande amiga minha e colega de profissão neste local. Nos falamos rápido até, mas o momento intrigante foi quando ela me apresentou duas amigas (bonitas, mas isso não vem ao caso) e uma delas me perguntou, logo na seqüência da apresentação do meu nome: “ Você está no orkut?” Poxa, eu acabei de conhecer a garota e a mesma diz uma coisa destas? Nada contra a pergunta, mas acho que isso poderia ser dito um pouco depois, ou talvez nem dito, mas o que me deixou pensativo (pensativo, eu?…) foi que todo mundo neste planeta, uma hora ou outra, fará essa pergunta a você, não tem jeito.
Outro dia, indo para o trabalho, inserido no transporte coletivo (cansei de falar dentro do ônibus) ouvi três meninas conversando entre si e adivinhem o nominho que surgia entre as tais meninas? Pois é, o nosso amigo das horas vagas (ou não vagas), o iogurte. O mais interessante é que elas falavam alto e, numa dessas descobri até o que uma ia fazer no fim de semana, o que a outra gostava e blábláblá… Está virando requisito até para emprego. “Olha, falarei com meu sócio e, conforme for, te deixo um scrap te avisando pra você começar na segunda, ok?”

Fico pensando, como seria a vida, agora, sem o yakult. Como seria? Imaginem vocês, AGORA. E aí, imaginaram como vocês avisariam sobre as festas, os eventos, as trocas de informações com intenções amorosas, os cumprimentos longínquos de “parabéns a você” (mesmo que você não saiba quem é a pessoa direito), os avisos de eventos, as desculpas, as piadas, os “estou aqui”, os malditos-peixinhos-eunucos-vegetarianos-coloridos-felizes-do-mar-báltico-central-das-ilhas-siamesas-da-primavera-de-setembro que insistem em ser clicados, os links enviados por hackers herdeiros de prostitutas que anseiam por nossas inocências repentinas e carregadas por curiosidade inevitável para, num clique, desnortear nossas vidas, enfim… como faríamos para dar continuidade à demasiada loucura e prazer simultâneos?
Eu não consigo imaginar a vida sem as páginas azuis, você consegue? Não, não sou tão louco como antes, agora entro mais para ver recados. O problema é quando vou ler um recado e acabo lendo 2734 recados mundo azul afora, recados, perfis, comunidades e por aí vai. Sei que ele faz mal, mas ele faz parte de nossas vidas, será difícil acostumarmos sem esta “dinâmica de grupo”, não temos como negar. É igual cigarro quando se larga. No começo é difícil, mas depois a gente fica melhor e vive numa boa. Isso é fato.

Falando em futuro, aproveitando o mote, fico pensando como seria a vida na antiguidade se existisse o orkut. Já pensaram? Eu já.
Imaginem se Hitler estivesse no orkut, com certeza Goebbels estaria na sua lista de amigos, certo? Pior, seria fã do bigodudo e deixaria vários scraps do tipo: “ Bigode, depois de amanhã na Polônia, ok? Vamos chegar bombando!” Ou então a resposta do alemão: “Fala Geb, sussa? No momento tô aqui enfurnado com umas planilhas para o dia D, mas depois a gente toma uma Heineken com chucrute, ok? Abs, Füher.” E as comunidades dele: “Nuremberg, tô fora”; “Sou baixinho sim, e que todo mundo se foda”; ou ainda aquela pra mulherada: “Você tem tanquinho? Eu tenho vários!”
E Newton? As comunas dele seriam: “Não, não comi a maçã, só formulei a teoria, porra”. O papa ia ter uma assim: “Sou poliglota, e daí?” Napoleão teria uma assim: “Quis o mundo e me fudi”. Shakespeare teria a clássica: “Ser ou não ser, eis a questão” e a fotinho seria uma caveirinha (ilustrada) nas mãos? Talvez… Leonardo da Vinci ia ter inúmeras comunidades, do tipo: “Amo pintura”, “Amo arquitetura”, “Amo matemática”, “Amo engenharia”, “Mona Lisa, sou eu?”, “Eu dou vinte sim.”
Michelangelo ia ter um das mais bacana na minha opinião a “ Puta trampo, mas pintei a Sistina sozinho” e por aí vai…

Bom, orkuts à parte, sei que este negócio doido veio pra deixar a gente mais doido. Mas fazer o quê, gostamos de doideiras, né? Falar nisso, você já olhou seu orkut hoje? Corre lá, vai que tem uma notícia boa te esperando. Aliás, outro dia resolvi ler a “sorte do dia” do meu orkut e sabem o que estava escrito? Estava assim: “Você vai ganhar roupas novas”. Meu, que sorte mais imbecil é essa? Que coisa mais vazia? Nada sobre personalidades? Poxa, fiquei esperando ganhar as roupas e até agora só estou lavando roupa suja…

Bom, pessoas, preciso fazer o meu logout. Aliás, acho engraçado quando escrevem “Parabéns, logout feito com sucesso”. Fico imaginando uma platéia sorridente aplaudindo a minha saída…

Valeu a paciência de chegarem até aqui.

Abraços a todos
(sem crise e sem crase)

João Aranha

01/06/06

Publicado em: Crônicas

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