O POVO, UNIDO, JAMAIS SERÁ ENRUSTIDO

Entrei sem saber, na realidade, entrei sabendo só um pouquinho, quando li uma pequena notinha (bom, se ela é notinha ela já é pequena, João) afixada na parede, como sempre fica no Espaço Unibanco e eu, como sempre, dou uma lidinha rápida, caso não tenha lido nada na Folha ou na internet e, também como sempre, digamos que eu decido na hora qual filme vou assistir. É verdade. Eu, normalmente, dou uma xeretada nos filmes lançados bem antes de sair, mas, ultimamente, tenho lido poucas horas antes da saída até o cinema e, mais precisamente, estou decidindo na hora mesmo, posto que lá, sempre tem filme bom passando. Você pode até nem conhecer nada sobre a película, mas sempre vai ter um filme de qualidade, talvez, no máximo, você até não simpatize tanto com a obra, não esteja dentro daquilo que você pretendia assistir, mas você verá que tem qualidade, tem roteiro, tem linguagem, e bota linguagem nisso, pois sempre rolam filmes nacionais, latinos, europeus, asiáticos e uns americanos do circuito independente e, por isso mesmo, estão dentro do meu apetite imagético e sonoro pra aguçar meus sentidos, todos eles, porque pra mim, cinema é uma catarse, e todas as linguagens estão lá. Assistir um bom filme, ainda mais sem saber nada sobre nadinha sobre o que vai ver é um tanto instigante, mas, detalhe, isso só rola em espaços onde o verdadeiro cinema existe, como o qual eu me refiro. Aliás, uma das coisas que gosto de fazer quando vou lá é ficar sentado fumando um cigarrinho, olhando pessoas, observando os óculos das meninas, observando as meninas, as pernas, olhos e sorrisos das meninas, o papo entre os casais, as barbas e cabelos desarrumados dos caras com camisetas bacanas, all stars levemente sujos, as charmosas faixas nos cabelos das mocinhas, ora bonitas, ora não bonitas, mas, à toda hora, estilosas. E, com o passar do tempo, prendo meus olhos na gigante foto de Oscarito e Grande Otelo, lindamente exposta na parede externa da sala 1. Fico imaginando eu, louco por cinema e suas conseqüencias nos dias de hoje e vendo que, a hilária dupla, já estava nas telas bem antes do meu pai namorar a minha mãe. Peraí…hmmm, é, é isso mesmo, meu pai ia ao cinema bem antes disso. Meu pai é doido por Mazzaropi, sempre gostou de propaganda e sempre fez trocadilhos. Pois é, deu no que deu, um publicitário doido por cinema e viciado em trocadilhos 25 horas por dia. Valeu pai. Sou assim e sou feliz.
Então, voltando… Eu? Prolixo? Imagina… Li a coluninha sobre Bubble, um filme que se passa em Tel Aviv e que narra a história de um namoro entre dois homossexuais, um judeu e um palestino. Bingo! O cara usou uma polêmica com uma polêmica de pano de fundo. Resultado: Polêmica. Mas não tanto. Vamos lá!
Eu não sou entendedor de cinema, apenas dou a minha opinião sobre o que gosto e o que não gosto e tampouco sei sobre política, ainda mais internacional, portanto, pode ser que eu fale algo fora do contexto, com certeza, mas o que importa é a opinião, né não?
Estava eu lá vendo um filme gay com a política do oriente médio fazendo a cama da trama. E, falando em cama, eu nunca vi um filme gay, é sério. Não tenho preconceito, tenho alguns amigos gays, mas cenas de sexo entre dois homens, objetivamente, não me atraem em nada mas, também, não me chocou em nada. De verdade. Achei muito interessante mostrar o relacionamento não de caráter sexual entre dois homens, mas o namoro em si, a paixão entre dois rapazes que, em meio à modernidade dos fatos e polêmicas mil, é adicionada ao tema brutal da eterna guerra entre dois povos que não se entendem nunca. Duas culturas diferentes, dois deuses diferentes, duas políticas diferentes, mas com duas pessoas iguais. O diretor israelense Eytan Fox, pelo que li (não assisti suas outras películas), é famoso por temas polêmicos e, desta vez, eu achei muito interessante retratar, sem malícia, sem perversão e sem purpurinas em excesso, aliás, é um filme sem purpurinas mesmo, um filme moderno, simples e verdadeiro, que mostra a dificuldade de dois homens se relacionarem com o peso da briga fatídica de dois povos arcaicos nas costas. Um filme bem feito que fala dos problemas sociais mas não com bandeiras e militâncias, mas com um olhar direto, com uma narrativa clássica e com um leve toque cômico, um humor leve e natural das cidades grandes, mas que, em determinado momento, pairam a tristeza pela incerteza do amanhã, a agonia da constante invasão com ataques terroristas e o medo de sair do armário (retratado pela família do palestino, onde o homossexualismo nas terras de Alá é banido de forma brutal e estúpida). O filme fala, sobretudo, de amizade, pois no apartamento moram três judeus, um é gay também, que mantém um caso com um cafajeste também gay, e o outro é outra, uma judia que, sinceramente, judia de minha alma, linda (me apaixonei, não teve jeito), é a única heterossexual, que também tem um affair com um homem também cafajeste. Juntos, formam uma turma de jovens (jovens na faixa dos 30) que ralam para ganhar o seu dinheiro, têm sua independência financeira e social, mas que vivem num país onde a paz não existe. Talvez exista dentro das casas, mas esta se dissipa rapidamente ao ouvir o estrondo de bombas e tiros nas avenidas, ruas e vielas, isso quando a maldita não entra dentro da própria casa.
Um filme que todos deveriam assistir, sem preconceito. Sem preconceito e com muita reflexão para vermos ou pensarmos que a vida das pessoas precisa de paz interior. Uma paz que, de dentro pra fora, faz-se a externa. Um filme para analizar friamente, que o problema do mundo não é dos governantes somente, mas de todos nós. Se aceitarmos as pessoas como são, a paz vem. É simples, é fácil, é digno. De nada adianta atacar uns aos outros em busca da terra prometida se na terra nada se promete em busca de harmonia.
Um filme simples que fala, com simplicidade, sobre coisas nada simples de resolver mas que, simplesmente, pode ser menos complexo pela ótica que estamos acostumados.
Um final surpreendente, um tema atual, uma nova reflexão e uma discórdia de séculos de ignorância regida por seres nada humanos.
E a terra prometida, ficou submetida à humildade que não existe em nenhuma das comunidades.
Um filme na tela, filmado em Tel Aviv, representado em uma terra em que pouco se vive.

João Aranha

30/08/2007

PS) Não sou contra judeus nem palestinos, pelo contrário, admiro as duas culturas, só não entendo porque o cessar fogo nunca será dito.

Publicado em: Crônicas

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