NON DUCOR, DUCO.

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Muybridge estava ali, ditando suas regras de ótica, mecânica, luz, cinema, estética. O passado vai embora, mas algo de bom sempre fica, algo de criatividade e inventividade fica ali, aqui e acolá, até hoje, graças ao bom Deus, que olha por essas e outras coisas loucas e maravilhosas de nossos grandes e incompreendidos criadores de um século cheio de histórias para contar. Exposição fantástica de coisas fantásticas de artistas fantásticos estava ali, no Itaú Cultural. Picardias, ousadias científicas e intelectuais estavam no meio da escuridão do local, cujo nome era “Cinema Sim”. Sim, cinema. Cinema sempre. Engenhocas e mais engenhocas, simples, de caráter não luxuoso, mas perspicaz em sua essência, prontas para fazer a gente soltar aqueles sons internos de nossa admiração que, ao saírem de nossa boca, caem naquele inevitável “Nossa… que louco, que bacana, sensacional! Quero levar para casa e botar na sala!” Uma simplicidade que nos deixa (pelo menos este simples e inexperiente redator) com mais vontade de conhecer coisas e, por conseqüência, ter mais questionamentos para com tamanha originalidade e grau artístico. Os princípios do cinema estavam ali, expostos para dizer que a magia veio de lá, dessas engenhocas que mais parecem instrumentos lúdicos para passatempos de feriado, mas que, justamente nestes feriados que vimos o quão importante é não apenas ver futebol pela TV ou comprar churros nos estádios dos mesmos (ainda se vende churros em estádios?), mas sim, apreciar a arte nestes dias que são preenchidos com mais tempo em nosso relógio. Toda a parafernália criativa desses seres estava à mostra para serem admiradas. Não era nenhum Renoir, nenhum Botticelli com seu “Nascimento de Vênus”, nenhuma “La Gioconda” atrás de vidros de proteção contra flashes, mas apenas criatividade e vontade de fuçar os princípios da física para, no século 20, virar mercado, indústria, mídia, entretenimento, comportamento e, também assim, o nosso cotidiano. Especialmente simples, mas com conteúdo de mirabolantes viagens que, graças a eles, viraram obras de qualidade e, por que não, também um entretenimento de qualidade?
Tinha Velázquez também, mas não em tela, mas na tela. Interessante ver uma espécie de making of de um dos quadros mais famosos e discutidos academicamente. Uma réplica de um quadro feito em vídeo, com a construção de “As Meninas”, o inquieto quadro deste famigerado espanhol. Uma reprodução da criação do quadro se faz na tela de RGB acompanhando com detalhes da tela de tintas CMYK. Ao término, boquiaberto fiquei frente à fidelidade da obra, feito um curta-metragem que mais soava como um devaneio de David Lynch. Ao conferir depois, com calma, pela rede mundial de computadores (mais conhecida como www) a obra original, lembrei-me que a fidelidade não era tanta, todavia, com tamanha pesquisa e estudos sobre figurinos, perspectivas, tons, luzes, enquadramentos e infinita paciência e linguagem incomum na direção de cenas, posso esquecer a minha ignorante e precipitada tese de não estar próximo à perfeição para dizer, com felicidade: “O cara é bom e fez um puta trabalho impecável e inovador”. No mínimo, diferente, um viés que eu, na minha tosca vida no corpo discente, nunca imaginaria fazer. Parabéns ao artista.
Uma lâmpada com pezinhos simpáticos dentro do bulbo fez parar pessoas ao som de pisadas no ambiente, um trompetista dentro da gaveta de uma velha escrivaninha me fez lembrar, novamente, Lynch, mas com admiração e sorrisos em minha face, com vontade de levar o cômodo para casa. Um autor filmado em 360 graus, visto em pequenas lâminas e apresentados dentro do princípio do movimento cinematográfico davam o tom de simplicidade e, repito, também queria levar a engenhoquinha intelectual para casa sem cansar de ver e ficar questionando a simpática pequena grande obra. Escadas com lambe-lambe, feixes de luz que cortavam a sala escura invadiam a alma deste ser desavisado, e muito mais vídeos, películas e áudios experimentais faziam parte da festa cultural. Um café, uma broa de fubá, um trio de jazz, pessoas bonitas, papos descolados, uma linda vista panorâmica da Paulicéia da Garoa da Terra Desvairada, desenhos, caminhadas, sorrisos, grandes papos e uma cerveja gelada na Praça Roosevelt finalizavam o dia rico, interrogativo e harmonioso, na presença de pessoas inteligentes, estilosas, bem humoradas e amigas fechavam a noite. Feriados são bons para fazer o corpo descansar e deixar que a mente trabalhe, em pleno exercício do pensar, fazendo hora extra prazerosa, com bom pagamento para o cérebro e um bater de cartão de saída junto às risadas, encantos e fumaças das trilhas paulistanas, cada vez mais charmosas e caóticas na busca por seus famintos e curiosos habitantes, acolhendo seres e dizendo a que veio, provando o seu “Non ducor, duco”.

João Aranha

23/11/2008

PS) Escadas com lambe-lambe, café, broa de fubá, trio de jazz e vista panorâmica são citações referentes ao Sesc Paulista.

Publicado em: Crônicas

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