ATÉ AÍ, TUDO BEM.

É… o dia estava bom. Bom mesmo, mas nem tanto se for analisar algumas coisas. Pois bem, estava eu a caminhar pelas avenidas paulistanas que tanto gosto e admiro e, às vezes, vem um pequeno stress aqui, outro ali e, assim, caminha a humanidade. No início da tarde, páro (vixi, a nova ortografia me pegou, tem acento aqui?) pra tomar um café numa cafeteria tradicional, dessas bonitinhas, que servem café com petit four (é assim que se escreve?) ao lado da xícara, que quando se mexe muito sempre caem gotas de café e deixam-no ensopado antes mesmo de ser degustado. Até aí, tudo bem, até o dado momento em que esbarrei, acreditem, na xícara e, pronto, uma bela poça de cafeína se fez com desenvoltura na mesa ao lado da xícara mas, por sorte, não veio ao meu colo. Saindo de lá, precisei fazer uns telefonemas atrás de trabalho, então, como meu “Graham Bell”, ou melhor, meu “Graham Cell” estava falecendo devido aos parcos créditos, cada alô seriam uns três créditos ingeridos e eu, nos dois e noventa e sete, puxo o cartão telefônico da carteira para usá-lo nos telefones públicos higienizados (eu acho que eles passam todos os dias só adesivando com a data vigente, enfim…) e introduzo o cartão amigo para efetuar a minha ligação. Até aí, tudo bem, mas quando o insiro no lugar apropriado vem a bela frase em cristal líquido no fundo verde: “cartão recusado”. Como recusado? Recusado por quem? Tem quarenta unidades nele ainda! Mal foi usado! Tento novamente. “Cartão recusado”. Cacete! Tudo bem, não quer? Tem o irmão gêmeo ao lado. Lá vai eu tentar no siamês verde-limão. “Cartão recusado”. Porra! Cadê a câmera? Deveriam estar me filmando para brincadeiras de mau gosto em programas dominicais. O sangue subiu e parti para um terceiro, logo ali na frente. Ufa…foi aceito, porém, com quem eu precisava falar não estava no momento. Paciência. O fato do cartão ser aceito já me deixava mais tranquilo. Ligo outro dia, acontece.

Fui pegar correspondências no apartamento onde morava mas, como usuário de internet procurando emprego precisa entrar ao menos uma vez na rede, lá fui eu adentrar numa lan house. Eu já disse que odeio lan house? Bom, digo agora. Eu odeio lan house. Elas são boas, ajudam a gente quando precisamos, mas sempre tem aquela mocinha que diz: “Você já tem cadastro?” Pessoas queridas, por que fazer cadastro numa lan house se você precisa só de meia hora ou pouco mais que isso num lugar que, provavelmente, você nunca vai voltar? Eu mesmo tenho cadastro pela capital toda e nunca mais voltei. Enfim, lá vai o redator aqui fazer mais um. Fui na máquina de número três. A merda de se conectar em uma lan house é a configuração. Sempre está gigante! Ok, vamos perdoar, existem pessoas que não enxergam bem, mas nós temos frescura, pelo menos eu tenho. Achamos que a máquina vai estar do jeito que a gente usa em casa ou no trabalho, com desktops sensacionais (eu sempre troco os meus, eu enjoo (acertei, não tem acento aqui) rápido e vou trocando por questão de dias, quero todos juntos ao mesmo tempo agora. Enfim, sentado na máquina três, eis que buga! “Olha, está travando. Já aconteceu duas vezes”. E a mocinha: “Tenta na quatro”. Ok. Mudei. Dois minutos depois, buga! “Olha, está travando nessa também”, disse eu, prostituto da vida. “Tenta na cinco. Essas máquinas foram formatadas ontem.” Ok, fui nela, que funcionou, mas o monitor estava descalibrado, ou sei lá o quê, o que resultava numa tela azulada, ou seja, comecei a ter dor de cabeça quando saí de lá, mas até que passou depois que saí.

Andando novamente, pego minhas correspondências. Só contas pra pagar, só contas e avisos bancários, nenhum bilhete premiado ou um bilhete da Letícia Sabatella dizendo que vai me esperar chegar em casa pra jantarmos à luz de velas. Saio de lá, vou comer na padoca (eu adoro padocas). Quase nunca peço salada, hoje resolvi pedir. Não é que veio uma antes e outra junto com o prato? Ah…eu odeio padocas. Mas até aí, tudo bem. Terminei o “jantoço” (jantar + almoço) e resolvi ir ao cinema ver “Anjos e Demônios” com o ingresso que ganhei do meu talentoso amigo ilustrador, o Malusco. Como falei pra ele, não costumo ir à blockbusters, pois prefiro pagar para um filme de gênero que eu gosto, como os europeus, asiáticos, brasileiros, latinos e os independentes americanos mas, achei que seria um bom filme. Fui.

Para ir à bilheteria era preciso subir ao penúltimo piso. Até aí, tudo bem. Já pegou escada rolante parada por algum problema? Pois é. Eu já. E uma das vezes foi neste momento. Ok, fui lá, peguei o meu ingresso na bilheteria depois de esperar numa fila que ia da Santa Cruz até o Jabaquara. Brinquei com essa tosca anedota com a mulher que perguntou se aquela era a fila do cinema e eu acho que ela acreditou, ou não entendeu, ou, com certeza, não achou graça nenhuma. Isso já era umas sete da noite e a sessão era só às nove. Até aí, tudo bem, mas o que eu ia fazer num shopping sem dinheiro e lotado de pessoas circulando, ávidas por consumo? Fui sentar num café, mas a princípio, era pra descansar, pois estava cansado de vir no metrô de pé e ficar na fila. Parei, pensei na vida, na minha vida e na vida de várias pessoas. Gosto de observar as pessoas andando por aí. Uma diferente da outra. Gosto de ficar imaginando o nome delas, a profissão, o que ela gosta ou o que ela odeia. É um ótimo exercício para o cérebro, mesmo que passe longe do acerto, vale a pena. Pois bem, eu precisava recarregar o bilhete único. Lá vai o João andar novamente. A fila desta vez estava uma delícia! Ia da Santa Cruz até o Tucuruvi. Até aí, tudo bem. Recarreguei e fui comprar uma casquinha de sorvete. Pois é, EU NUNCA TOMO SORVETE. Gosto muito, mas não tenho o hábito, nem no verão, mas resolvi comprar. Quando chega a minha vez, só tinha um cara na minha frente (essa filinha era modesta, ia da Santa Cruz até a Ana Rosa). Eis que ouço a mocinha: “Ai gente…o caixa travou! Não tem como vender”. Eu indaguei, brincando (mas já estava meretrizo da vida): “Você não pode anotar a venda separado? Seria com dinheiro”. E ela, aflita e simpática: “Não dá! O gerente prefere que eu pare de vender do que vender separado”. “E não tem como mesmo?” – continuei. “Só no segundo piso está funcionando. Se eu tivesse o cartão pra passar o código funcionaria, mas só com o gerente.” E eles não te dão o cartão?” – disse eu. “Não.” Eu novamente: “E não tem como chamar o gerente por esse telefone aí?” E ela sorridente: “Está quebrado!”. E eu, sorrindo feliz: “Ah tá…o caixa está quebrado, o telefone está quebrado e eu estou quebrado! Então está tudo bem!” Eis que ela grita: “Ah…voltou!” Ufa, durou pouco. Comprei a tal casquinha. Saio de lá e vou tomar um café, mas pedi uma água antes, pois tenho o hábito (não sempre) de tomar água antes do café. Pedi: “Um espresso e uma água. Mas, por favor, me vê a água antes. Depois eu peço o café.” E o atendente: “Tudo bem.” Olha que maravilha! Ele trouxe os dois juntos! Fora a aguinha com gás que vinha junto. Mas ate aí, tudo bem. De tanta água, vou ao banheiro. Após urinar rapidamente, lavo minhas mãos e…o papel acaba! Por sorte tinha outro do outro lado. O sangue começava a subir, mas até aí, tudo bem. Vou subir, pro cinema.

Quando entro é aquela maravilha! Turmas gigantescas enfileiradas guardando lugar pra alguém que sempre vem bem depois carregando combos gigantescos de guloseimas, açúcares, refrigerantes, pipocas e outras merdas. Sentei, quieto, no canto, na penúltima antes do corredor. Quando vi, não tinha o braço esquerdo de apoio. Olhei e notei que ele estava levantado para trás. Puxei para frente e, ao tocar no braço, senti meus dedos se lambuzarem deliciosamente. Que delícia! Mas até aí, tudo bem. Eis que vem um casal. “Fulana, tem mais lugar aí?” Os falatórios em voz alta aumentavam e se misturavam. E eu, com o meu saco em Júpiter, dei licença. “Não, não precisa” – disse o casal simpático recheado de moletons e combos. “Não, sentem aí, eu vou pra frente”. Eu sou educado. Stressado, mas muito educado. Fui pra frente, porém, ao descer, bati minha canela na poltrona. Quase mandei todos às putas que os pariram, mas fiquei quietinho, xingando em silêncio. Estou no meu humilde lugar e vem uma mulher, típica das que gostam da fonte Comic Sans, que consideram inovadora, sabe? Ela entra e o namorado, também Comic Sans, recebe as guloseimas trazidas com carinho pela parceira, olha que lindo! Ela trouxe um sorvetinho na caixinha, que fofo! Além da pequena caixa, trouxe um refrigerantezinho, uma pipoquinha e o meu mal humor embrulhadinho. As pessoas não paravam de falar. Por que isso ocorre, meu Deus? Por quê? Viva o Espaço Unibanco! Viva o Belas Artes! Viva o Bombril, Bourbon, Reserva e Arteplex! Lá não tem barulho, não tem nhoc-nhoc no ouvido, não tem sujeira e, melhor, só tem filme bom. Aí começa o filme, mas, durante alguns momentos, gritaram lá de cima: “Shhhhiiiii… Silêncio!” É…gritaram mesmo, e não fui eu, hein?

O filme acaba. Saio do cinema, pego o metrô e, tarde da noite, já perto de casa, avisto um ser meio suspeito andando em minha direção. Ao virar a esquina, dou uma leve corrida até em casa, saindo na frente do ser suspeito para que ele não me alcançasse, pois era muito suspeito. Chego em casa num frio de 17 graus suando como no verão de Salvador. Mas até aí, tudo bem. Pelo menos acho que o meu dia acabou.

Ah…sobre o filme? É bom. Eu gostei. Tem clichês à beça, mas eu gostei. Mas isso eu falo da próxima vez.

E até aqui, tudo bem.

João Aranha

07/07/2009

Publicado em: Crônicas

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12 comentários em “ATÉ AÍ, TUDO BEM. Deixe um comentário

  1. nem sei como cheguei aqui mas me identifiquei do começo ao fim. tem dias que não dão a mínima pra gente mesmo. triste, divertido só mais tarde.
    exercito também a arte de imaginar o que as pessoas fazem da vida, pra ver se encontro solução pra minha. um dia encontro!
    beijo e parabéns!

  2. adOro. fazia tempo que não te lia. caí aqui pra diversão garantida.
    “Graham Cell”… O fato do cartão ser aceito já me deixava mais tranquilo… ou um bilhete da Letícia Sabatella… A fila desta vez estava uma delícia! Ia da Santa Cruz até o Tucuruvi… “Ah tá…o caixa está quebrado, o telefone está quebrado e eu estou quebrado! até aí, tudo bem!”… e o namorado, também Comic Sans… o meu mal humor embrulhadinho.

    só pra vc entender um pouco onde estavam minhas risadas. é sempre bom ler vc, primo.

    1. Agora que vi que não tinha respondido este seu comentário…rs.
      Obrigado por gostar do que escrevo, prima. É sempre um prazer saber disso. Só desculpe a demora da resposta…rs.
      Grande beijo,
      Primo João

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