A ARTE DA VERDADE NUM PISCAR DE OLHOS

Em meio a tantas guerras, uma obteve destaque: a guerra pela guerra. Não, não digo guerra de armas, fuzis e sangue borrado em roupas comuns, me refiro à guerra de talentos da sétima arte, talentos estes, interpretados, filmados e, por que não, demasiados? Pois é, guerra de um lado, cheia de violências e guerra de outro, com excelências em demasia. Sim, excelências da sétima arte, uma pelo grande talento de Malcolm McDowell neste vigoroso e inquieto clássico Laranja Mecânica e outro pelo renomado diretor do mesmo, o sempre e também inquieto, Stanley Kubrick.

Tamanha grandiosidade do diretor somada à interpretação do ator citado, faz deste filme um alerta para a humanidade. Não, não seria um falso alarme, tampouco um grito de revolta em vão, mas sim um enorme eco para a sociedade e uma grande aula de cinematografia para admiradores e profissionais do cinema. Toda a obra de Kubrick, do começo ao fim, nos mostra um “tapa na cara” para o mundo e o mesmo “tapa” para extremistas, timidamente ofuscados pela falta de ousadia e do olhar peculiar deste ímpar diretor. Stanley Kubrick dita as regras neste filme que deixa a platéia em estado catártico sobre um fato que nos cerca constantemente: a violência urbana e suas banalidades. Produzido bem no início dos anos 70, o diretor mostra ao público a agressividade impulsiva e irresponsável do protagonista, interpretada com muita veracidade técnica nas cenas da película, do início ao fim. Um retrato de fatos que nos rodeiam desde os primórdios, mas que hoje são postos de lado, na maioria das vezes por fatores externos, como membros do poder e outras forças maiores. A violência gratuita de Laranja Mecânica é retratada não como isca para bilheterias exorbitantes, mas sim como análise de como ela surge, como ela se faz, se prolifera e, por fim, como ela nunca estará perto de sua inexistência propriamente dita. A violência do longa não se dá somente em termos físicos, mas na violência em que ela mesma se mantém, através de ações majoritárias de pessoas influentes e pela passividade do povo que pouco sabe como ela se dá, mas que pouco quer saber como ela pode se findar. Obra-prima é o que podemos chamar diante desta projeção tão sabiamente elaborada e regurgitada para a sociedade e suas vertentes maléficas que ela mesma não tem mais controle. Somada a estas brutalidades físicas e mentais, está o diferencial de Kubrick que mostra, desde o primeiro frame, o seu talento artístico, sua sagaz e verborrágica lente e sua audaciosa crítica aos fatos cotidianos, tentando gerar possíveis soluções para um mundo melhor, juntamente com sua visão única de cinema, cultuada por muitos, o qual se tornou referência fundamental do Cinema Cult, fazendo jus ao nome. A técnica de captar ângulos nunca óbvios e a maneira quase hipnótica de contar uma história se deve ao olhar particular que ele nos revela com maestria, como se talvez ele dissesse ao telespectador: “A vida é assim, mas já pensaram em ver assim?”.

Seu grito é seu mote e o mote é fazer deste grito um levantar de sobrancelhas jamais visto por alguns de visão mais mediana. A violência deste filme não está nos socos e pontapés oriundos do descontrolado e delinqüente rebelde (muito bem vivido por Malcolm), está no manifesto de sua arte, no estalar de dedos para acordar uma sociedade surda-muda para os fatos estúpidos que, desde que o mundo é mundo, são engrandecidos e, simultaneamente, banalizados, sem ao menos chegar ao ponto de erradicá-los por uma questão de estudos ou força de vontade. O cinema de Stanley Kubrick carrega a resposta que todos querem ver, mas que ninguém nunca viu. Sua “Laranja”, mecanicamente, nos deixa perplexos em saber que a violência está dentro de cada um e que, se a deixarmos gritar, o mundo, lamentavelmente, nunca mais ficará calado. Mas a intenção de Kubrick está em deixar muda, bruscamente, toda uma nação, com sua película silenciosamente gritante e sua verdade cáustica e refinada.

Outro fator que merece atenção é a trilha sonora que de detalhe passa a ser um glorioso e irônico pano de fundo para a história contada, o qual Beethoven é o compositor permeado por todo o filme onde também é fato mencionado pela personagem que é fã do autor alemão. Ouvir Ludwig van Beethoven é uma das “faíscas” que começam a mudar a rotina e o caráter do delinqüente escolhido para regenerar-se com técnicas desumanas para o melhor convívio na sociedade, o qual também é o mote para a resolução da violência apontada neste clássico, uma sensibilidade musical infiltrada na insensível brutalidade da história e suas personagens. Uma maneira quase lúdica de evidenciar e contrapor a paz e sensatez de seres humanos com a irracionalidade e rebeldia de seres criminosos, esta é a linha escolhida pelo diretor, uma antítese para com os lados extremos da vida, o positivo pacífico se funde ao terror sem limites de alguns ditos cidadãos. Uma atmosfera irônica toma conta do ambiente quase surreal e psicodélico que o diretor, com seu lado detalhista, o faz como uma brincadeira, mas uma brincadeira séria e pensada, nada gratuita. Toda a harmonia do filme, ainda que densa em valores morais e sociais, é focada como uma fábula fantástica, com sua característica de mostrar temas adultos com uma imagética vanguardista, afinal, embora produzido em uma época “pós-beatlemania”, o cinema ainda obtinha traços um pouco mais tradicionais perto deste produto audiovisual tão forte. A linguagem kubrickiana traz o tom sarcástico e sublime, tons necessariamente misturados para chocar o público, mas sem que o mesmo se sinta enojado.

A cinematografia de Kubrick tem forte expressão, tem fundamento, ousadia. Sua técnica e arte sempre mostram um filme diferente, um filme para se pensar, obras feitas para um público exigente e que aprecia uma boa película cinematográfica, com todas as suas vertentes estéticas, sua erudição intelectual e seu olhar sempre inovador, sempre agressivo e criativo, feitos com temas simples mas expressos com uma ótica que fez de Stanley Kubrick um dos mestres do cinema contemporâneo, com uma carreira expressiva que teve, entre seus retornos profissionais, muito sucesso, fãs fervorosos e muitas inquietações e discussões entre cinéfilos de todo o mundo.

Entre tantos gênios do cinema, com olhares e lentes diversificadas, sempre tem um que se destaca por algum feito que, mesmo admirando, não conseguimos definir. Stanley Kubrick é um desses tantos gênios e sua filmografia é sempre assim, de uma forte roupagem plástica, inquietante e perspicaz. Quem conhece seus filmes sabe o que ele quer dizer, ou talvez não.

Um filme bom em todos os sentidos para aguçar, literalmente, todos os sentidos.

Aprecie este primoroso filme, mas nem ouse piscar.

João Aranha

30/12/2005

Crônica referente ao filme “Laranja Mecânica”, do diretor Stanley Kubrick.

4 comentários em “A ARTE DA VERDADE NUM PISCAR DE OLHOS Deixe um comentário

  1. Realmente é um filme pra ser apreciado sob os mais diversos pontos, tanto os que englobam a produção em si quanto os que abordam questões relacionadas a comportamento e fatores psicológicos.Incrível como o ser humano consegue tanto avanço tecnológico e permanesce tão primário em relação a própria evolução.Nossa mente é um grande enigma e esse filme mostra com primazia a conexão k os caras k fazem cinema tem em relação a tal: nos momentos de tensão, escolha da trilha(a intensidad…numa ment perturbada), marcas expressivas do personagem, tudo calculado para aguçar a mente de quem está do outro lado da tela.Já vi diversas abordagens sobre esse filme k reflete bem a maravilha das maravilhas , A Sétima arte.
    Mas houve alguma relação entre pensar nesse filme e na eliminação do Brasil na Copa, pela seleção da Holanda?!rs…
    AP

    1. Pois é, Tassiana… eu também não canso de ver e rever, tanto que acabei comprando. Acho ele perfeito, um dos meus filmes preferidos. Valeu a visita! Beijoão.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s